Camarões, cacau, chope e uma ‘alternada’

Passei boa parte da semana passada nos ares. E, graças a Deus, estou de volta à terra – quero dizer, neste momento estou na redação da Veja, no 19º andar do Novo Edifício Abril – para contar o que fiz e vi em Natal, Salvador e Curitiba.

Estive em Natal e Salvador para orientar o trabalho dos jornalistas que vão fazer a apuração e as reportagens sobre os estabelecimentos das respectivas edições que integram o projeto O Melhor da Cidade.

Em Natal, na terça à noite, dei uma escapulida ao Camarões Potiguar, eleito na edição passada como o melhor restaurante de pescado da região. Com um nome desses, é natural que o preparo do crustáceo, nas mais diferentes formas, seja a especialidade da casa: ao alho e óleo, à grega, à milanesa… Dizem até que, aos domingos, cerca de 1 500 clientes passam por lá para experimentar alguma receita.

Dispensei o couvert e pedi um pastelzinho de camarão (R$ 5,00). Num tamanho equivalente a um terço dos pastéis das feiras paulistanas, veio bem recheado, com catupiry, inclusive. A massa, porém, não era das mais sequinhas. Na seqüência, encarei meia-porção de camarão ao molho de alcaparras, acompanhada de um delicioso purê de mandioca. Meia-porção é modo de dizer, porque perdi a conta de quantos desses bichinhos haviam no prato.

Enquanto me empanzinava, fiquei observando um trio de senhores na mesa em frente. Um deles, 60 e poucos anos, gordo, olhou o cardápio de cima a baixo, chamou o garçom e soltou:

– O filé daqui é bom?

– Sim, muito bom, respondeu o garçom.

– Então me traga um, ao ponto para bem passado.

Na hora lembrei-me da reportagem de André Petry sobre Nova Orleans na Veja da semana passada, em que ele conta sobre a ocasião, pós-furacão Katrina, em que George W. Bush fez uma refeição num dos melhores restaurantes daquela cidade, famoso por seus frutos do mar. O presidente, é claro, encarou um bifão…

No dia seguinte, almocei no Paraíso Tropical (foto), em Salvador. Essa pitoresca casa do agrônomo e chef Beto Pimentel fica escondida numa ruazinha no bairro do Cabula. No local, em cujo terreno estão plantadas 6 000 árvores frutíferas de 123 espécies diferentes, já funcionou até uma rinha de galos. Alguns desses pobres coitados ainda ciscam ali, engaiolados.

O salão de refeições mais lembra uma varanda. Há duas fileiras de mesas, protegidas do sol, do vento e da chuva por cortinas, apenas. Foi ali que provei uma das famosas moquecas de Beto, temperadas com frutas. No lugar do azeite de dendê, inclusive, ele coloca o próprio fruto na panela de pedra.

Ao fim da refeição, é praxe: o garçom traz à mesa uma bandeja repleta de frutas colhidas no pomar do restaurante. Tem laranja, limas, limão, manga, melancia, abacaxi, jaca e até cacau.

Fazia anos que eu não encontrava um cacau ‘pessoalmente’. Juro que ainda não consigo entender como aquela delícia azeda, em forma de bola de rúgbi, gosmenta e recheada de sementes que têm o tamanho de um mentex, consegue ser transformada numa barra de chocolate…

Cheguei na quinta-feira à capital do Paraná, justamente para o evento de lançamento da edição de Veja Curitiba – O Melhor da Cidade. Assim que a bela cerimônia acabou, estiquei para o Babilônia Gastronomia & Cia, que faturou os prêmios de melhor restaurante variado e melhor fim de noite.

Aberto 24 horas por dia, esse restaurante com astral de bar tem pé direito alto e um mezanino que, numa das laterais, divide espaço com a bela adega. Como havia passado o dia em trânsito, decidi pular os petiscos e selecionar no vasto cardápio um ravióli de vitela com molho de funghi.

Já passava da 1 da manhã quando desembarquei no Aos Democratas para tomar a saideira. Este bar tem uma história bacana: foi aberto há cinco anos, com apenas cinco mesinhas. Na base do boca-a-boca da freguesia, a área da casa foi crescendo e hoje ocupa dois pavimentos de um imóvel de esquina. Ali só se fala em futebol – basta ver as camisetas de times penduradas nas paredes. A dupla bolinho de abóbora com carne seca e chope, de colarinho regulamentar, atrai a atenção dos clientes mais fiéis.

De volta ao hotel, sabia que teria pouco mais de duas horas de sono até tomar o avião para São Paulo. Seria, de qualquer forma, tempo maior que a imprevista meia hora que passei em Recife, logo no início da viagem.

Por causa da tempestade que caía sobre Natal, o piloto decidiu “alternar”, minutos depois do tradicional aviso: “tripulação, preparar para o pouso”. Ou seja, quando o avião já estava bem baixinho, deu meia-volta, botou força nos motores e subiu novamente, desta vez para reabastecer no aeroporto dos Guararapes. Quase, assim, uma arremetida.

Tenho certeza que meu cardiologista há de agradecer por todo vinho que tenho tomado recentemente.

Aos Democratas. Rua Doutor Pedrosa, 485, Batel, Curitiba, tel. (41) 3024-4496.

Babilônia Gastronomia & Cia. Alameda Dom Pedro II, 541, Batel, Curitiba, tel. (41) 3566-6464.

Camarões Potiguar. Rua Pedro da Fonseca Filho, 8887, Ponta Negra, Natal, tel. (84) 3209-2425.

Paraíso Tropical. Rua Edgard Loureiro, 98-B (segunda travessa à esquerda da Rua Nossa Senhora do Resgate), Cabula, Salvador, tel. (71) 3384-7464.

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