Lambrecagens

Conversando há pouco com uma amiga pelo MSN, ela me conta que seu fihote, de poucos meses, babou biscoito de maisena sobre o teclado do computador.

O pequeno desastre doméstico me fez lembrar do glutãozinho lambusado na foto do cantinho desta foto.

Tirei-a, aliás, quase um ano atrás, quando estive com minha Camila na região do Lago Maggiore, na divisa da Itália com a Suíça. O tal Chez Manuel fica na encantadora Isola Dei Pescatori, uma das que ficam no meio do imenso lago.

Paramos para o almoço e comemos uma memorável lasanha – com gosto daquelas que nossa mãe faz pra gente num domingão de São Paulo e Parmêra, precedida por um prato de presunto cru, daqueles de desmanchar no esfrega-esfrega entre a língua e o céu da boca.

Viva!, por lá é primavera.

Chez Manuel. Via Di Mezzo, 41, Isola Dei Pescatori, província de Varese, Lombardia, Itália, tel. 00XX39 032332534

Advertisements

Tarimba

Um brinde ao tarimbado vô Antoninho, com quem dividi algumas taças de vinho, uns copos de cerveja mas, infelizmente, nenhum dry martini.

Eu só queria tomar um chope

Parafraseando meu amigo Luiz Américo Camargo, editor e colunista do caderno Paladar do Estadão, na noite de terça passada “eu só queria tomar um chope” depois do trabalho.

Saí da redação lá pelas 11 da noite e resolvi conhecer a filial do Bar do Juarez aberta meses atrás em Pinheiros.

A bem da verdade, a casa fica numa rebarbinha da Vila Madalena, numa região cercada de residências térreas, bem mais tranquila que o miolo da Rua Aspicuelta. É talvez a maior das quatro unidades (as outras ficam em Moema, no Brooklin e na Vila Olímpia), se não a mais ajeitada. Tem um salão interno e uma enorme área a céu aberto, com teto retrátil.

Fazia uma noite bonita, embora não muito quente, e resolvi pegar uma mesinha no espaço descoberto.

À medida que eu caminhava pelos diversos ambientes, até chegar à mesa, percebi que um garçom carregava uma bandeja com alguns copos de chope. De um lado ao outro ia, voltava e descarregava um copo numa e noutra mesa – sem que nenhum cliente o pedisse.

Há quem veja nesse hábito um exemplo de eficiência no serviço.
–Putz, como esses caras são rápidos! Meu chope mal acabou e eles já vieram repor!, dirão.

Mas eu sou da turma que detesta esse expediente, pelo simples fato de que, depois de uns bons minutos levando o copo para lá e pra cá, a bebida vai chegar à mesa deteriorada: mais quente e sem o colarinho protetor.

Dito e feito: assim que me sentei, o cidadão veio com o último copo da bandeja. Agradeci, disse que sim, queria um chope, mas não aquele. E pedi que fosse tirar um zerinho.

Depois de umas doze horas na luta, e por R$ 4,50 a caldeireta, convenhamos, eu merecia um chopinho decente, não?

Já acomodado, xeretei o bom cardápio e resolvi pedir um caldinho de feijão (inacreditáveis R$ 9,00!) e um sanduíche de filé com molho acebolado (R$ 13,00).

Hummm!, pensei, o caldinho vai forrar o estômago e o sanduba vai ser um belo arremate!

Que nada…

Um quinze minutos depois, vejo à minha frente, ao mesmo tempo, os dois pedidos!

Será que o garçom (era outro, por isso achei que não era nada pessoal) pensou que eu estava esperando alguém? Estaria eu com cara de quem voltou da guerra? Haveria um ectoplasma na outra ponta da mesa? Não, eu estava sozinho…

Resultado: a cada duas colheradas no caldinho – de feijão preto, muito bom, e acompanhado de torresminho picado e quentinho –, eu tascava uma mordida no lanche, para que nem um nem outro esfriassem.

Depois de mais um chope, veio a conta (R$ 34,10, já com os 10% do serviço) e a, por assim dizer, vingança: deixei R$ 34,00 contadinhos, com duas notas de R$ 2,00 e três de R$ 10,00.

Bar do Juarez. Rua Deputado Lacerda Franco, 642, Pinheiros, tel. (11) 3578-5228.

PS: quem circula pela Vila Madalena, aliás, deve ficar atento. A 1 da manhã de hoje, ao sair da redação, vi uma blitz na Rua Pedroso de Moraes, e motoristas sendo parados para fazer o teste do bafômetro. À Vila, vá de táxi, portanto.

Sobre chope e vinho

– Cara, olha isso! Quantos bares abertos! E ainda é terça-feira!

As exclamações acima foram ditas a este blogueiro, “ao vivo”, por Dirceu Vianna Jr. (na foto acima), o primeiro brasileiro a receber o título de Master of Wine na Inglaterra (o contexto das exclamações eu explico já, já). Convidado para comandar uma degustação na Expovinis, feira de vinhos que se encerrou ontem no Transamérica Expo, Vianna vive na Grã-Bretanha há duas décadas.

Para ter uma ideia da façanha do paranaense, basta dizer que existem menos de 300 masters of wine no planeta. Ele alcançou o título após passar os últimos doze anos estudando tudo o que diz respeito ao vinho. Se fizermos uma comparação, esse é o tempo que alguém que deseja seguir a área acadêmica leva para concluir a graduação, o mestrado e o doutorado.

Conheci Dirceu já no apagar das luzes do primeiro dia da Expovinis. Sobre o evento, disse-me que achou o nível altíssimo, tanto no que diz respeito à organização quanto à qualidade das bebidas apresentadas e ao portfólio dos expositores e importadores. Queixou-se apenas sobre o cigarro – fosse na Europa, seria proibido fumar. Faz sentido, afinal uma degustação de vinho passa pelos exames visual, olfativo e, aí sim, de paladar. (Que o Serra não nos ouça)

Como ele teria não mais que duas horas livres por aqui, já que no dia seguinte embarcaria para Londres, sugeri que esquecêssemos um pouco de vinho e fôssemos tomar um chope. De pronto aceitou o convite e também juntou-se a nós o jornalista Nuno Vaz Pires, diretor da belíssima revista portuguesa Wine.

Seguimos para a Vila Madalena e, mal estacionamos o carro na Rua Mourato Coelho, o neolondrino Vianna já arregalou os olhos com a movimentação do Posto 6, do Boteco São Bento e da Costelaria Patriarca. Torcedor do Arsenal e morador do norte de Londres, costuma cruzar com vizinhos como Rod Stewart e um dos caras do Oasis nos pubs perto de sua casa, no norte da cidade.

Paramos primeiro no São Cristóvão para tentar comer uma alheira (Nuno imediatamente aprovou) e tomar um chopinho. Não havia mesas livres, por isso nos acomodamos na quina do balcão, ao lado da chopeira. Com tantos quadrinhos e fotos antigas de times e jogadores de futebol cobrindo as paredes, Vianna não sabia para onde olhar.

– São Paulo é demais! São Paulo é demais! A essa hora Londres já está dormindo.

Era quase meia-noite e, como não havia lugar para sentarmos, caminhamos um quarteirão e meio até o Filial. Fomos recebidos pelo Ailton – sim, ele voltou mesmo! –, que imediatamente nos colocou numa mesinha bem bacana. Mais uma rodada de chope, duas canecas de caldinho de feijão, uma porção de bolinho de carne seca, dois espetos de picanha e uma dose da cachaça Claudionor.

– Bem aromática! – desta vez o comentário foi de Nuno, torcedor do Porto.

Contava-lhes rapidamente que o Filial costuma resistir até 4, 5 da manhã, ainda que não seja um fim de semana, quando chegaram dois distintíssimos exemplares da beleza paulistana e sentaram-se em banquetas ao lado do balcão. Ailton ganhou beijinhos no rosto e duas caldeiretas imediatamente desceram à frente das moças.

Era apenas mais uma terça-feira em São Paulo.

Filial. Rua Fidalga, 254, Vila Madalena, tel. 3813-9226.

São Cristóvão. Rua Aspicuelta, 533, Vila Madalena, tel. 3097-9904.

Cadê o senhor, seu Elídio?

Eu vinha adiando há tempos uma visita ao reformado Elídio Bar, pelo receio de encontrar um lugar irreconhecível. Sabia que isso poderia acontecer. E foi mais ou menos isso o que aconteceu na tarde de sábado.

Como meu colega Fabio Wright havia adiantado em um texto para a coluna 50 Bares, na Vejinha de 10 de setembro de 2008, a casinha mooquense do velho Elídio Raimondi ganhou balcões de mármore travertino, TVs de plasma e uma ligação direta entre os salões do piso superior e do térreo. Ficou linda.

Se era um dos mais autênticos botecos da cidade, com cara, alma e paredes sujas pela bagagem de seus 36 anos de vida, agora o Elídio mais parece um clone de si mesmo, com aquelas paredes brancas sem graça e os quadros corretamente alinhados sobre elas.

Se o senhor me permite, seu Elídio, quero fazer umas perguntas: por que o velho néon foi desligado? Cadê as fotos dos magníficos balões, seu Elídio? E as velhas banquetas de plástico? Onde foi parar a coleção de canecas?

Graças a Deus, o senhor não descuidou do chope – que continua distintíssimo – nem do inimitável balcão de petiscos, muito menos da feijoada (embora os R$ 83,00 cobrados pela cumbuca, para duas pessoas, sejam um tanto exagerados, né?).

Mas, pelo jeito, não fui eu o único a desgostar da belezura em que se transformou o seu bar. Afinal, esta foi a primeira vez que voltei à Mooca e não encontrei o senhor ali, atrás do balcão, mostrando para a gente como é que se tira um copo de leite.

Gostaria de ter-lhe dito tudo isso pessoalmente. Mas o senhor não estava lá, seu Elídio.

Elídio Bar. Rua Isabel Dias, 57, Mooca, tel. 2966-5805.