Santiago parte 2 – O dia em que fui abduzido pelo choro maltón

Nem bem eu havia alcançado o segundo quarteirão da via paralela à rua do hotel (Calle Santa Beatriz), durante a minha primeira caminhada por Santiago, quando avistei, do outro lado da rua, o letreiro enorme: “Ostras y Mariscos”.

Pela aparência do ponto julguei se tratar de uma peixaria, já que não havia nenhuma outra identificação na fachada. Continuei seguindo, pois, em direção à Avenida Providencia sem dar maior atenção ao lugar. Até que notei que três senhores de meia idade, engravatados, cruzaram a porta de madeira e quadradinhos de vidro.

Opa!, pensei, aí tem.

Atravessei o meio-fio, cheguei à porta, abri e entrei. Num salão com não mais de 4 metros de frente por 6 metros de comprimento, vi que à minha esquerda e à direita havia apenas dois refrigeradores repletos de camarões, mariscos e outros pescados congelados. À frente, no balcão, um sujeito de boné remexia nuns papéis.

– Perdão, senhor, estou enganado ou vi entrarem aqui três rapazes engravatados?

– Sim, eles entraram. Estão no restaurante.

– Onde? Não consigo vê-los e não me parece ter nenhuma porta para outro salão.

– Estão lá embaixo. Por aqui, por favor.

Absolutamente incrédulo, cruzei o balcão e vi, no chão, um buraco de cerca de um metro quadrado. Através dele, notei uma escada de madeira, que terminava num salão do qual pouco eu conseguia avistar. Apoiando a mão esquerda na parede, desci devagarinho cada um dos onze degraus. Embasbacado, ao chegar ao subsolo encontrei não só os três figuras, como mais oito, nove comensais distribuídos em duas mesas que dividiam o espaço exíguo com caixas de vinho.

O marujo

O marujo

Num terceiro ambiente, menor ainda, uma mesa comunitária de teto baixo acolhia uma turma celebrando um aniversário. À esquerda da escada, a cozinha.

Esse endereço inacreditável chama-se Bahía Pilolcura e, se o Google não me sacaneou, é pouco conhecido até mesmo entre os santiaguinos. Pertence a Alejandro Soto Velasquez, um pescador que vive no sul do país. Além de fornecer pescados a casas ligadas ao movimento Slow Food chileno, Velasquez vende produtos fresquíssimos e congelados e, de quebra, deixa sob a responsabilidade do amável chef Francisco Torres o preparo de algumas receitas.

Sentindo-me um marujo – é justamente essa a impressão, a de estar no porão de um barco pesqueiro – deixei a escolha do que iria comer por conta do chef.

Primeiro ele me trouxe um sensacional ceviche de lagostim (as porções custam cerca de 3500 pesos – ou 14 reais!), seguido das gambas al ajillo (camarão ao molho de alho, azeite e vinho branco, uma de minhas receitas preferidas e que, modestamente, fiquei craque no preparo).

Merece muita, mas muita atenção a porção de “choro maltón”, que apresenta mariscos gigantes cozidos no vapor (sim, os da foto). Esses mariscos escondidos em conchas de 9 centímetros de comprimento vêm das ilhas Calbuco, distante 1200 quilômetros de Santiago. São colhidos apenas no outono e no inverno, quando as águas do Pacífico atingem a temperatura de 9 graus centígrados! A essa temperatura, contou-me Don Francisco, os pescados conservam melhor seus nutrientes.

O choro maltón de Don Francisco

O choro maltón de Don Francisco

Por fim, provei também a “chupe de locos”, uma quentíssima e aromática caldeirada de frutos do mar.

Navegar, afinal, és preciso.

Bahía Pilolcura – Calle Antonio Bellet, 35, Santiago, Chile, tel. (02) 235-1345

 

Obs: post corrigido às 19h27 do dia 28 de setembro de 2009

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