O fenômeno do mercado

foto: Eduardo Pozzela

foto: Eduardo Pozzela

Caros leitores, espero que tenham a ideia da causa do silêncio eloquente de semanas. Não sumi, não apaguei, apenas tenho tido dias longos na redação. Muito trabalho, pouca cerveja. Bom, de todo modo, estou aqui, voltei, ainda que o pânceps não tenha diminuído 1 centímetro de sua circunferência.

Há dias que quero dividir com vocês o produto de uma viagem bate-e-volta que fiz a Belo Horizonte recentemente. Eu tinha pouco tempo livre e queria comprar um bom queijo da serra da canastra. Como não sou um iniciado no assunto e não queria trazer gato por lebre, liguei para o Eduardo Maya (grande amigo e mentor do imperdível festival Comida di Buteco) e baixei mais uma vez no Mercado Central de BH.

Além de evitar roubadas, o telefonema do Eduardo me fez cortar um caminho danado. Vocês sabem, para alcançar algumas coisas boas dessa vida é preciso de referências, ir ao lugar certo, procurar “a” fonte.

Nesse meu caso, a outra fonte atende pelo nome de Ronaldo Queijos e Cachaças, banca cuja especialidade é, digamos, autoexplicativa. No Mercado Central há vários boxes que oferecem o queijo canastra, mas não é em qualquer um que o vendedor faz o mise-en-scène que valem como que um certificado de qualidade do produto. Afinal, trata-se de algo feito a partir de leite cru recém-ordenhado e, portanto, não-pasteurizado, e que demanda muito esforço da vaca. Para cada quilo e pouco de queijo são necessários até dez litros de leite.

Quando o freguês pede que lhe venda um queijo canastra, Ronaldo examina as dezenas de exemplares empilhados sobre o balcão, retira um daqueles gordos discos do meio, fecha a mão direita e lhe desfere uma meia dúzia de murros.

O procedimento é um daqueles mistérios que só encontram eco na sabedoria de nossas mães e avós que, com um toque e uns toc-tocs sobre a casca de algumas frutas, sabem escolher a mais madurinha, a mais docinha, do jeito que a gente gosta.

O fato é que o espancamento lácteo impressiona o freguês, que se convence de que o equilíbrio entre a rigidez da casca curada e  a maciez do miolo vale como atestado de boa procedência, tanto quanto o cheiro forte e azedo que lembra, bom, deixa pra lá…

Devo admitir que a minha ideia de fazer uma degustação – trouxe na mala um pedaço do fresco (um pouco mais salgado que os queijos-de-minas pasteurizados), outro do meia-cura e um pedacinho do curado, do diâmetro de uma bolacha maria – não teve muito ibope lá em casa.

Melhor pra mim, que pude harmonizar por vários dias, e sempre sozinho, com uma bebida diferente: café de coador (melhor com o fresco), coca-cola (tarde da noite, no meio de um pão murcho), vinho de sobremesa (foi bem com o curado e o meia-cura) e um alcoolico malbec argentino (curado).

Se bem me lembro, ainda resta um tiquinho do curado na geladeira. Será que vai cair bem com uma dosezinha de Primeira Dama (cachaça das boas, produzida em Patos de Minas)?

Depois eu conto.

Ronaldo Queijos e Cachaças. Avenida Augusto de Lima, 744, lojas 34 e 141, Mercado Central, tel. (31) 3274-9611, Belo Horizonte

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