Bode bonito é bode ruim

Atolado de bode do Mocotó/ foto: Mario Rodrigues

 

Do show do bloco Quanta Ladeira, na noite de quinta (11), ao bota-fora no show de Elba Ramalho no Marco Zero e à enlouquecedora aglomeração no Galo da Madrugada, às 9 da manhã de sábado, o carnaval em Recife e Olinda foi dos mais intensos.

Dez anos depois do que havia sido a última experiência carnavalesca por lá, ficou a lição de que a energia para dançar, cantar, frevar e festejar sem parar, dormindo apenas três horas por noite, é exclusividade dos mais resistentes e mais jovens. E foi legal constatar também que a festa, em Pernambuco, mantém sua essência popular. As ruas recebem crianças, famílias, casais e idosos fantasiados em relativo clima de paz, se considerarmos que mais 1 milhão de pessoas costumam sair ao mesmo tempo.

Nos intervalos entre um e outro bloco e uma ou outra atividade, aproveitei para conhecer e rever alguns bares e restautantes, como o Beijupirá, de Porto de Galinhas (caro, de serviço e cozinha medianos), o Camarada (gratíssima surpresa, por receitas como o prato repleto de camarão grelhado com pimentões), e o recém-aberto Tapioca, de cozinha sertaneja, ambos em Boa Viagem.

A visita a todos eles de alguma forma correspondeu às expectativas. A exceção, ou melhor, a decepção, infelizmente ocorreu num dos lugares que eu mais gostava em Recife – o Entre Amigos o Bode. Aberta em 1994, a unidade de Boa Viagem prosperou de uma forma curiosíssima. Para resumir, os donos de uma banca de jornal passaram a servir espetinho de bode com cerveja.

O sucesso foi imediato e, apesar de a banca existrir até hoje, o foco do negócio voltou-se para um bar-restaurante no estilo botecão, com salão arejado e simples, sem frescura, teto de telha e cardápio dedicado quase 100% a invencionices com cortes de bode: guisado, assado, com molhos e acompanhamentos diversos.

Um barato era sair da praia e seguir direto para lá, de chinelo e sunga molhada por baixo da bermuda, e se jogar numa das cadeiras de madeira, bem à vontade naquele ambiente que apropriadamente lembrava uma ampla varanda de casa do interior.

Pois agora o astral do Bode, como é singelamente conhecido, perdeu todo e qualquer resquício de autenticidade. Sob o pretexto da modernização – sempre ela… –, os proprietários botaram tudo a baixo e ergueram um Bode todo modernoso, com pé-direito alto, balcão chique, persianas de madeira escura e outros exageros.

Qualquer desavisado que chegar ali e não observar o cardápio, dirá que está em uma pizzaria-chique, em um restaurante de cozinha variada, uma hamburgueria-chique ou em uma casa especializada em uma culinária qualquer. Jamais identificará um dos lugares que sempre representou com orgulho a culinária sertaneja.

A cozinha, para meu desgosto, derrapou logo na entrada. Tive de devolver a porção de macaxeira frita, que na verdade é empanada. Em seu interior, a raiz estava completamente congelada. A carne servida no réchaud (outra modernidade…) ressecou antes que terminasse de comer.

Felizmente, na unidade do bairro do Espinheiro, disseram-me meus amigos recifenses, nada mudou.

Em São Paulo, deixo duas dicas certeiras, e cada uma autêntica à sua maneira, para quem quiser encarar pai e filho: no Mocotó, não se pode dispensar o atolado de bode preparado pela equipe do chef Rodrigo Oliveira.

E no Bar do Magrão (na verdade é na Cantina, que funciona ao lado), sob encomenda, o anfitrião prepara um senhor pernil de cabrito assado, que pode ser dividido por quatro comensais.

Bar do Magrão. Rua Agostinho Gomes, 2988, Ipiranga, tel. (11) 2061-6649, www.bardomagrao.com.br

Mocotó. Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1100, Vila Medeiros, tel. (11) 2951-3056, http://www.mocoto.com.br

3 thoughts on “Bode bonito é bode ruim

  1. É exatamente isso !!! O grande barato do ‘Bode’ era a sua simplicidade. Cheguei a frequentar o lugar quando ainda era a tal banca de revista. Não dá nem pra comparar…
    Em novembro estive no Brasil e vi que o serviço do bar vai de mal a pior, assim como a comida, que sempre deixa a desejar.

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  2. Miguel,
    Não sei se vc já viu a históra de um tal de Roberto Chalita q escrevia para o Jornal de Vinhedo e tinha um outro blog e plagiava textos de blogueiros q fazem crônicas e falam tb sobre bares. Qto a texto não sei (pois já estão fora do ar), mas o nome de um dos blogs dele é (ou era) Boteclando, como o seu. Segue o link do q saiu no Comunique-se para vc ver http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&p2=idnot%3d55049%26Editoria%3d8%26Op2%3d1%26Op3%3d0%26pid%3d255216%26fnt%3dfntnl&rss=on

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