Siri sem casca e camarão na barquete

Como é bom voltar a um lugar depois de muito tempo e constatar que pouca coisa mudou por ali, não?

Quero dizer, se esse lugar for uma praia como a de Santo André, no sul da Bahia, que revi no fim de semana passado, nenhuma (ou pouca) mudança é benvinda.

Santo André é uma vila de pescadores que pertence ao município de Santa Cruz de Cabrália, 25 quilômetros ao norte de Porto Seguro. Para chegar lá, toma-se a balsa em Cabrália, que leva uns dez minutos para cruzar o Rio João de Tiba, perto da foz, contornando o manguezal. Essa travessia é um bônus do programa, por assim dizer, sobretudo ao por-do-sol.

Cerca de 2 quilômetros à frente do desembaruqe da balsa, à beira da rodovia BA-001, está Santo André, com suas duas ou três ruas de terra, meia dúzia de pousadas, o resort, a praia quase sempre deserta e uns quatro ou cinco restaurantes.

Um desses restaurantes é o Gaivota, que fica a uns 200 metros da foz do Rio João do Tiba. De suas mesas veem-se o subir e descer da maré, o mar ao fundo. Conforme a época, ancoram por ali catamarãs e outros veleiros de pequeno porte, para a curiosidade da criançada local, que passa o dia a tentar a sorte com seus carretéis de linha e anzóis jogados na água.

Gaivota: vista do encontro do rio com o mar

Conheci o Gaivota em 1995, voltei em 2002, 2005 e agora. A caipirinha de abacaxi continua uma delícia, assim como a moqueca. Como o preparo dos pratos é lento, não se deve dispensar de jeito nenhum a casquinha de siri, ou melhor, o siri desfiadinho com farinha, bem temperado, servido no prato.

Enquanto eu me dedicava à casquinha sem casca, olhando para o rio, viajei até Ilhabela (SP), onde está talvez a melhor casquinha de crustáceo do nosso litoral. Falo do Viana, o restaurante à beira-mar que prepara uma sensacional versão do petisco, só que de camarão. Na verdade, a casquinha é uma barquete comestível sobre a qual são dispostos camarões graúdos envoltos num creme que lembra um bobó.

No Viana, aliás, nem é necessário se preocupar em conseguir uma mesa no salão. Convém apenas caprichar na citronela (há umas garrafinhas à disposição) e se acomodar numa das mesinhas de frente para o Canal de São Sebastião.

Seja no gaivota, seja no Viana, a vista para o rio e o mar é cortesia da casa.

Gaivota. Avenida Beira-Rio, s/nº, Santo André, Santa Cruz de Cabrália (BA), tel. (73) 3671-4144.

Viana. Avenida Leonardo Reali, 1560, Viana, Ilhabela (SP), tel. (12) 3896-1089.

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Exclusivo: um trecho do livro do Pirajá

Em primeiríssima mão, o blog publica logo abaixo um trecho, algumas imagens e ilustrações do livro Pirajá: uma esquina carioca, que vai ser lançado no sábado, 21 de agosto, no bar dito-cujo.

Trata-se de um apanhado de receitas de botequins clássicos e histórias contadas numa prosa tão boa quanto uma conversa de balcão, pelo sambista Moacyr Luz, com intervenções do escritor Ruy Castro. O ensaio fotográfico é de Romulo Fialdini e os desenhos, do cartunista Jaguar, ele próprio, assim como o autor, personagem de várias anedotas contadas no livro.

No dia do lançamento, marcado para as 14 horas, Luz vai puxar uma roda de samba ao lado de Paulão Sete Cordas, violonista que toca com Zeca Pagodinho, e Pedro Miranda.

De quebra, o chef português Vítor Sobral desembarca de Lisboa para estrear um cardápio especial de oito petiscos – já estou curioso par saber do que se trata essa tal de alhada de camarão (R$ 29,00)… O menu de Sobral deve ficar em cartaz por cerca de um mês na casa.

Quem aparecer por lá, consegue comprar o livro por R$ 50,00. Nas livrarias estará à venda por R$ 65,00.

Pirajá. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 64, Pinheiros, tel. (11) 3815-6881.

* * *
Uma tarde noto o teto do Pirajá mais baixo, rebaixado.
Deduzi ser uma estratégia de marketing com as bebidas na prateleira
mais perto das mãos, ou da vista, para não recorrer ao exagero,
o desejo e o material. Enfim, coisas do mundo consumista.
Nada.
O teto sofrera um tratamento acústico para amenizar o bafafá diário
do cliente exasperado.
– Ué, isso existe?
Achei um apêndice desnecessário àquele órgão de álcool e acepipes.
O problema é que, depois disso, reparo sempre no volume da conversa
quando a parede apela somente para a cal para selar barulhos.
– Rapaz – falei sozinho –, esse troço ajuda.
O mesmo espanto sofri quando assentei no piso do nosso bar
paulistano.
Acolchoava.
Nascia em botequim o piso hidráulico.
– Ué, faz diferença?
Não, não faz.
Parêntesis:
Houve um tempo em que rodapé de balcão era bordado de serragem.
O sujeito que não cuspisse em botequim era expulso veladamente
da confraria do bar.
Se houvesse um quadro, a foto dele estaria virada.
O malandro pedia uma dose qualquer, pingava na serragem um
gole para o santo, bebia garganta adentro toda a graduação contida e
depois, olhos ardendo em fogo, cuspia o último travo no chão.
Penso, em desnecessárias elucubrações: seria o piso hidráulico
uma serragem pós-moderna?
Num domingo de eleição, cinco da tarde, lei seca encerrada, o bar
da esquina abre e lota. Fiéis clientes e bebuns de títulos antigos.
O garçom está empolgado, mas é nítida a pouca prática com o serviço.
Ele grita para o balcão:
– Oito chopes, quatro refris e copo com gelo e limão!
Um alvoroço na altura da cintura. É a sede de democracia.
O garçom, suando, pega a bandeja lotada até o fim do inox e sai
correndo para o esquecido fundo do bar.
Faz um passo de balé, em vão.
Chão molhado, o coitado escorrega na bainha e todos os mililitros
daquele volume despencam na cabeça de uma perua que acabara de
sentar contrariada com o marido.
Entre os culpados, sobrou até para o governo.
Intervenção (de Ruy Castro):
OS BOTEQUINS não têm culpa se, às vezes, seus frequentadores
não dominam a etiqueta do lugar. No tempo
em que morei em São Paulo, nos anos 80 e parte
dos 90, nunca me conformei com a ausência dos botequins
sórdidos, estilo carioca, nem menos ainda com a
solução encontrada por São Paulo para substituí-los:
as padarias. Para mim, não há lugar mais inadequado
para beber a sério do que uma padaria.
Para os que começam cedo os trabalhos, tipo sete
ou oito da manhã, o que pode haver de mais broxante
do que sentar-se ao balcão, pedir a primeira e ver o
recinto invadido por gente a fim de comer sanduíche
de mortadela, tomar coalhada ou comprar margarina?
Como beber na presença de senhoras discutindo o
preço das geladeiras na Mooca, o penteado de Yoná
Magalhães na novela ou a escassez de panetone depois
do Natal? Toda vez que isso me aconteceu, preferi
pegar minha síndrome de abstinência, sem perder
um tremido, e ir beber alhures – o que costumava ser,
por inevitável, mais uma padaria, só que vazia.
As padarias são “família” demais para quem gosta
de botequins. E quem leu Freud ou Nelson Rodrigues
sabe que não se pode confiar em famílias – são um
covil de bandalheiras, mesquinharias e golpes baixos.
Em comparação, os botequins, por mais vis em matéria
de apresentação e higiene, são de uma pureza
absoluta. Neles, depois de um certo grau de álcool no
sangue, ninguém é melhor que ninguém, e ai de quem
transgredir essa lei.
* * *
Hoje é comum encontrar essas melhorias em qualquer botequim
vagabundo.
A discussão perde o sentido.
É comum, principalmente em balcão de mármore, implicar com
o óbvio.
– Você não viu jogar o Ananias. Esse sim, melhor que o Pelé… –
Bom mesmo era quando a estrada era de terra… A praia era deserta,
uma maravilha…
– Eu gostava mais da tevê em branco e preto… Detesto controle
remoto! Perde a graça!…
– Não troco minha Brasília por importado nenhum…
– Eu também…
– Só assisto a programas culturais…
– Concordo, enquanto não conhecer meu país de ponta a ponta não
viajo para fora…
– É isso mesmo! Prefiro a gordura de porco em barra a arriscar meu
estômago com essas canolas ou óleos transgênicos…
– Cachaça só presta se for de cabeça.
– Se você conhecesse minha Olivetti, entenderia meu desprezo por
esses micros…
– Já eu pego o uísque, passo um pouco no pulso e cheiro. Se sobrar
bouquet, é verdadeiro…
– Isso sem falar no fulano, um injustiçado. O mérito fi cou apenas
com o Tom Jobim, o rei do plágio… É, é, o rei do plágio!
E foi o maestro quem proferiu a frase:
– O sucesso incomoda!
Chega uma hora em que essas miudezas acordam necessárias.
Meu grande ídolo Jaguar, recusando uma excursão etílica, justifica:
– Ô rapaz, eu não tenho mais coragem para isso. Nem pretendo que
o meu bar se transforme numa CTI de asseado, mas um conforto é
necessário…
Fui dormir com duas dúvidas.
Será que não frequento bares, e sim safáris?
O que eu comi agora foi salmão mesmo? Ou teria sido uma sardinha
pintada de rosa?
Nesse saibro rebato todas as bolas a favor do Pirajá.