Uma semana legal

Esta última semana de setembro, e do terceiro trimestre!, tem sido das boas – a despeito da derrota do meu São Paulo ontem…

Na manhã de terça consegui nadar 2000 metros em 45 minutos para que, à noite, pudesse sair menos culpado do jantar ao qual havia sido convidado por alguns amigos, no Kosebasi, restaurante de cozinha turca no Itaim Bibi.

Esses amigos se reúnem uma vez por mês para degustar vinhos. Como convidado de última hora, reconheço que pisei na bola. O vinho que comprei para essa degustação ficou em último lugar na prova às cegas. Explico: nesse encontro, cada casal levou uma garrafa embalada em papel alumínio, para que a bebida fosse degustada, sem que se soubesse o que estava sendo consumido. Só se sabia que os vinho eram franceses da região do Rhône. Cada um dos convivas avaliou individualmente os vinhos, do melhor ao pior, e no fim os rótulos foram revelados.

Não que o vinho que levei fosse ruim. Longe disso. O Crozes-Hermitage Les Jalets (importadora Mistral) é de boa safra, 2006, e excelente produtor: Paul Jaboulet Ainé. Ocorre que à mesa só havia feras e à sua frente vinhos muito bons.

Minha sorte foi que durante o jantar, repleto de especialidades como o pide, uma espécie de esfiha assada em um forno anexo ao salão, do tabule, dos kebabs e da picanha fatiada sobre pasta de berinjela com queijo feta, a atenção se desviou para… o pide, os kebabs, o tabule e a picanha (a conta deu redondos R$ 90,00 por pessoa).

Ontem, apesar do São Paulo…, jantei no Marina di Vietri, na Vila Olímpia, uma cantina onde é possível comer um esplêndido espaguete ao vôngole ou uma costeleta cordeiro acompanhada de , antes de seguir para uma baladinha no Lions Club, em pleno centrão. Instalado no primeiro andar de um prédio sessentão, o lugar tem uma varanda ampla, que dá uma interessante vista para a Avenida 23 de Maio, em primeiro plano, e, ao fundo, para aquela pequena confusão de prédios que cerca a Catedral da Sé. Som bom, na linha um-pouco-de-tudo, e mais alguns colegas por perto, já que a casa estava fechada para a festa de uma empresa de amigos (não sei se em dias normais eu me disporia a pagar R$ 120,00 pela entrada…).

Marian di Vietri/ Foto: Mario Rodrigues

Daqui a pouco, saio da redação para o Friccó, restaurante italiano no Paraíso, para a segunda degustação da semana, desta vez da Confraria dos Sete + Um, da qual orgulhosamente faço parte desde o início deste ano. Vamos beber vinhos do Piemonte acompanhados de pratos como espetinhos de linguiça de javali e de queijo de coalho; ravioloni de ricota, queijo brie e berinjela na manteiga, salvia e maçã caramelada; e tagliata de contrafilé com molho balsâmico e purê de fava, mais sobremesa (por esse menu, cada um de nós vai pagar R$ 90,00).

Amanhã (e se eu conseguir fugir de cruzamentos perigosos, segundo meu horóscopo) conto se meu vinho desta vez se saiu melhor, antes de tomar o rumo do Bar 8, nos Jardins, onde vou dar um abraço de feliz aniversário em um amigo.

8 Bar. Rua José Maria Lisboa, 82, Jardim paulista, tel. (11) 3889-9927.

Friccó. Rua Cubatão, 837, Paraíso, tel. (11) 5084-0480.

Kosebasi. Rua jerônimoda Veiga, 461, Itaim Bibi, tel. (11) 2362-9971.

Lions Club. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 277, centro, tel. (11) 3104-7157.

Marina di Vietri. Rua Comendador Miguel Calfat, 398, Vila Olímpia, tel. (11) 2659-7824.

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Triana não é Sevilha

Recentemente participei de uma degustação de jerez, o refrescante vinho licoroso produzido na região de Jerez de la Frontera, no sul da Espanha. O paladar extremamente seco e o teor elevado de álcool – que ultrapassa os 15 graus – não é do agrado de muita gente por aqui. Pudera, com a concorrência de caipirinhas, caipirosacas e quetais, o jerez acaba sendo preterido como aperitivo, ao contrário do que acontece na Inglaterra, onde até a rainha deve tomar suas dosezinhas de sherry, como a bebida é chamada por lá, durante seus passeios pelos jardins de Buckingham.

Em se tratando de jerez, fico com os súditos de Sua Majestade, e sempre que posso dou minhas bicadas por aí, seja num fino Tio Pepe ou La Ina, as marcas mais conhecidas nos bares e restaurantes paulistanos.

Pois na semana passada, ao sorver calma e lentamente os primeiros goles do delicioso jerez da Bodega Rey Fernando de Castilla, imediatamente me lembrei dos finos – a versão mais seca do jerez – que tomei em Sevilha, em julho passado. Jerez de la Frontera, é bom dizer, fica próxima a Sevilha e Cádiz.

Primeiro, veio a lembrança das noites tórridas do verão andaluz, em que eu abria os trabalhos etílicos acompanhado do fino da casa – não fazia questão de rótulo, confesso – e de algumas croquetas de jamón, antes de passar para o segundo e/ou terceiro bares da noite.

foto: Miguel Icassatti

 

Em seguida, me teletransportei para o bar da foto – devo ter anotado o nome em algum lugar… –, que me acolheu depois de três ou quatro tentativas frustradas de tentar comer algo depois da meia-noite em algum lugar do monumetal centro histórico da Sevilha. Aliás, Sevilha (quase) toda é monumental.

Esse bar fica em Triana, antigo bairro situado do lado de lá do rio Guadalquivir, na rua paralela à que margeia a água, via dominada por turistas ruidosos e barraquinhas de toda sorte. A história diz que Triana foi no passado um bairro tomado por ciganos (juro que não vi nenhum), uma zona popular, boêmia e pobre se comparada à opulência de outras regiões da cidade. O casario antigo, composto por sobrados de fachada humilde, está preservado e ainda se veem por suas ruas estreitas certos endereços nos quais é possível assistir a apresentações de flamenco.  

Ali consegui refrescar os miolos com ar-condicionado, garanti um lugar no balcão e depois de alguns minutos uma mesa, à qual me acomodei para comer uma seleção de tapas e terminar a noite com um copo de Glorioso Crianza, um tinto simples e muito bom, produzido na Rioja e que cumpria ali a função de vinho da casa. Impresso na camiseta do garçom ainda tive tempo de ler o recado: “Triana não é Sevilha”. Foi só depois de caminhar pelas duas margens do Guadalquivir é que fui entender o significado dessa frase.

Dona Felicidade, personalidade gastronômica do ano

foto: Mario Rodrigues

 

Quinta-feira, 16 de setembro de 2010, 22h30, evento de premiação de VEJA SÃO PAULO “Comer & Beber”: a mestre de cerimônias Fernanda Torres não havia alcançado o terceiro parágrafo do texto que conta a trajetória da Personalidade Gastronômica do ano e as lágrimas já desciam pelo rosto da portuguesa Felicidade Bastos, sentada a poucos metros do palco.

Aos 84 anos de idade, Dona Felicidade recebeu a homenagem – justíssima, diga-se! – graças ao legado boemiogastronômico que vem deixando ao longo dos 75 anos em que vive no Brasil. Dona de uma mercearia na Pompeia, transformou em 1970 o lugar no Pé Pra Fora, um dos botecos mais sensacionais de São Paulo.

Em 1996, tendo dois dos cinco filhos, Toninho e Sergio, como escudeiros, mudou-se para um galpão no trecho em que a Rua Tito é uma ladeira, na Vila Romana, e ali inaugurou a aconchegante casa que leva seu nome: Dona Felicidade.

Da entrada (o bolinho de bacalhau é obrigatório!) à sobremesa – alguém consegue pedir a conta antes de sucumbir ao desmaiado, aquele pudim demaria-mole que só ela consegue acertar o ponto? – a cozinha de Dona Felicidade é puro comfort food, muito antes de esse rótulo ter chegado por aqui.

 

Dona Felicidade. Rua Tito, 21, Vila Roama, tel. (11) 3864-3866.

Pé pra Fora. Avenida Pompeia, 2517, Sumarezinho, tel. (11) 3672-4154.

Amêijoas de Aveiro X berbigões de Florianópolis

Na noite de segunda-feira jantei na Marisqueira Sintra, restaurante eleito como o melhor de cozinha portuguesa na edição 2009-2010 de VEJA SANTA CATARINA ‘Comer & Beber”.

A casa, de ambiente simples e claro, fica de frente para o mar calmo do distrito de Santo Antônio de Lisboa, no norte de Florianópolis, em meio a construções caiadas, remanescentes da colonização açoriana.

Além de mim, no salão estavam o dono do restaurante, um casal e a garçonete, que me trouxe à mesa um cardápio com providenciais imagens – disponíveis também no site da casa – dos pratos servidos ali: receitas com camarão, bacalhau, polvo, pescados diversos e berbigões à bulhão pato.

Ao ver essa sugestão, não tive dúvida, tratei logo de pedir um pratão de berbigão. O berbigão é um marisco de concha pequena, da família do vôngole, muito encontrado na costa catarinense. O tal modo de preparo à bulhão pato é uma referência ao escritor português Raimundo António de Bulhão Pato, que certa vez citou um cozinheiro em um texto. Leva azeite, alho, coentros, sal, pimenta, limão e, em alguns casos, vinho branco.

É um prato muito comum nas marisqueiras típicas de Portugal. Por lá, em vez de berbigão o ingrediente principal é a amêijoa, maiores, mais saborosas e suculentas. Em julho, quando rodei o país de carro, me acabei de tanto comê-las. Estas que estão na foto são de Aveiro, cidadezinha muito bacana a meio caminho entre Coimbra e Porto. Cortada por canais, é conhecida como a Veneza portuguesa.

Bulhão Pato sabia mesmo das coisas.

Marisqueira Sintra. Rua XV de Novembro, 147, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis, (48) 3234-4219, http://www.marisqueirasintra.com.br

Minuto de silêncio para Paulo Martins

Paulo Martins em ação

 

Na madrugada de hoje, por volta das 4 horas, morreu em Belém (PA) o chef Paulo Martins, que fundou 38 anos atrás, ao lado da mãe, Anna Maria, o restaurante Lá em Casa.

Arquiteto por formação e cozinheiro autodidata, Martins foi um incansável divulgador da culinária amazônica. “A comida paraense é a melhor representação da culinária brasileira, pois toda a sua base é composta de produtos de origem indígena”, afirmou ele a VEJA BELÉM em 2007, ano em que foi eleito pela segunda vez o chef do ano.

Diante da exuberância de recursos naturais ao alcance de suas mãos ou da ponta do anzol, Paulo Martins usou frutos, temperos e pescados regionais para conquistar a admiração de seus clientes e colegas de profissão. Em 1999, criou o Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, evento anual que já reuniu em Belém cozinheiros como o paulista Alex Atala e a fluminense Flávia Quaresma.

A amizade de Martins com Alex Atala, aliás, começou em meados daqueles anos 90. O Lá em Casa tornara-se conhecido por integrar a Associação da Boa Lembrança, da qual fazia parte o Filomena, de São Paulo, onde Alex começava a despontar. “Liguei para ele, me apresentei e pedi dicas, pois estava começando a usar ingredientes amazônicos no Filomena”, contou Atala em entrevista ao blog.“Ele foi sempre muito generoso, um bandeirante da cozinha brasileira”.

Foi Alex quem apresentou o chef Ferran Adrià a Paulo Martins. Na Espanha, o catalão cedeu a cozinha de seu laboratório à dupla e em retribuição provou alguns pratos preparados com os 30 quilos de produtos amazônicos que Paulo e Alex levavam na bagagem. “Ele gostou de tudo, até que, por último, experimentou o jambu”, contou Paulo Martins em um bate-papo com a culinarista Bettina Orrico, da revista Claudia Cozinha, em 2006. De fato, em seu livro de receitas editado em 2008, Adrià incluiu uma receita com tucupi, depois que visitou Paulo Martins em Belém.

Entre as geniais criações creditadas a Paulo Martins está o hadoque paraense, que nada mais é do que a gurijuba, um peixe barato, cuja carne sempre fora desprezada. Comida de pobre, dizia-se. Decidiu banhá-lo numa salmoura com urucum e defumá-lo. Pronto, surgia assim uma nova iguaria e o preço da gurijuba nas peixarias belenenses nunca mais seria o mesmo…

Estive três vezes no Lá em Casa, já no ponto situado na Estação das Docas, belíssimo complexo gastronômico e cultural às margens da baía do Guajará.

Sei que se comenta que no novo Lá em Casa não se come tão bem quanto nos endereços anteriores, primeiro a própria casa em que Paulo morava, e o seguinte, no bairro do Umarizal.

Esse é um comentário irrelevante quando o comensal tem à mesa, diante de si, um surpreendente menu degustação criado por Martins, como o corridinho de peixe.

Trata-se de uma sequência que começa com uma posta de pirarucu fresco na chapa e segue com picadinho de tambaqui, hadoque paraense, filhote no tucupi, pescada amarela à milanesa, arroz de jambu, farofa de pirarucu e feijão-manteiguinha de Santarém. Inesqucível.

Na manhã seguinte, estava eu lá no Mercado Ver-o-Peso em busca de um quilo de feijão-manteiguinha, coisa que faço toda vez que volto a Belém.

São Paulo Restaurant Week, últimos dias

A poucos dias do fim de mais uma São Paulo Restaurant Week, evento em que alguns estabelecimentos preparam um menu fixo a R$ 29,00 no almoço e R$ 39,00 no jantar, mais R$ 1,00 de doação para OnG Ação Criança, é bacana constatar a adesão de novas casas ao evento, em comparação com edições passadas.

É verdade que alguns desses restaurantes restringem a oferta do cardápio apenas ao almoço ou ao jantar e que outros preparam receitas nada criativas. Mas sorte e alguma paciência – já que as casas costumam lotar – podem ajudar a quem queira descobrir novas (ou rever) opções gastronômicas.

As recentes viagens de trabalho têm dificultado minhas incursões. Até o momento consegui conferir apenas três lugares mas acho que vale a pena dividir minhas impresões sobre cada um. Vamos lá:

Estación Sur (Alameda Joaquim Eugênio de Lima, 1396, Jardim Paulista, tel. 3885-0133)

Menu do jantar:

Entrada (saladinha de alface com tomate-cereja): ruim

Prato principal (bife de chorizo com batatas estufadas): bom

Sobremesa (panqueca de doce de leite): bom

Saldo: bom –

 

Regina Preta Bistrô (Rua João Ramalho, 766, Perdizes, tel. 3875-2550)

Menu do almoço:

Entrada (creme de cenoura com gengibre): ótimo

Prato principal (sobrecoxa de frango com cuscuz marroquino): ótimo

Sobremesa (panacota com calda de maracujá): bom

Saldo: ótimo

PS: não deixe de recorrer ao cardápio da casa e provar a sensacional coxinha

 

Vinheria Percussi (Rua Cônego Eugênio Leite, 523, Pinheiros, tel. 3088-4920)

Menu do jantar:

Entrada (saladinha de folhas, cenoura e beterraba raladas mais castanha do Pará): bom

Prato principal (rabada com polenta): ótimo

Sobremesa (torta de ovos e amêndoa): bom

Saldo: bom +