Triana não é Sevilha

Recentemente participei de uma degustação de jerez, o refrescante vinho licoroso produzido na região de Jerez de la Frontera, no sul da Espanha. O paladar extremamente seco e o teor elevado de álcool – que ultrapassa os 15 graus – não é do agrado de muita gente por aqui. Pudera, com a concorrência de caipirinhas, caipirosacas e quetais, o jerez acaba sendo preterido como aperitivo, ao contrário do que acontece na Inglaterra, onde até a rainha deve tomar suas dosezinhas de sherry, como a bebida é chamada por lá, durante seus passeios pelos jardins de Buckingham.

Em se tratando de jerez, fico com os súditos de Sua Majestade, e sempre que posso dou minhas bicadas por aí, seja num fino Tio Pepe ou La Ina, as marcas mais conhecidas nos bares e restaurantes paulistanos.

Pois na semana passada, ao sorver calma e lentamente os primeiros goles do delicioso jerez da Bodega Rey Fernando de Castilla, imediatamente me lembrei dos finos – a versão mais seca do jerez – que tomei em Sevilha, em julho passado. Jerez de la Frontera, é bom dizer, fica próxima a Sevilha e Cádiz.

Primeiro, veio a lembrança das noites tórridas do verão andaluz, em que eu abria os trabalhos etílicos acompanhado do fino da casa – não fazia questão de rótulo, confesso – e de algumas croquetas de jamón, antes de passar para o segundo e/ou terceiro bares da noite.

foto: Miguel Icassatti

 

Em seguida, me teletransportei para o bar da foto – devo ter anotado o nome em algum lugar… –, que me acolheu depois de três ou quatro tentativas frustradas de tentar comer algo depois da meia-noite em algum lugar do monumetal centro histórico da Sevilha. Aliás, Sevilha (quase) toda é monumental.

Esse bar fica em Triana, antigo bairro situado do lado de lá do rio Guadalquivir, na rua paralela à que margeia a água, via dominada por turistas ruidosos e barraquinhas de toda sorte. A história diz que Triana foi no passado um bairro tomado por ciganos (juro que não vi nenhum), uma zona popular, boêmia e pobre se comparada à opulência de outras regiões da cidade. O casario antigo, composto por sobrados de fachada humilde, está preservado e ainda se veem por suas ruas estreitas certos endereços nos quais é possível assistir a apresentações de flamenco.  

Ali consegui refrescar os miolos com ar-condicionado, garanti um lugar no balcão e depois de alguns minutos uma mesa, à qual me acomodei para comer uma seleção de tapas e terminar a noite com um copo de Glorioso Crianza, um tinto simples e muito bom, produzido na Rioja e que cumpria ali a função de vinho da casa. Impresso na camiseta do garçom ainda tive tempo de ler o recado: “Triana não é Sevilha”. Foi só depois de caminhar pelas duas margens do Guadalquivir é que fui entender o significado dessa frase.

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4 thoughts on “Triana não é Sevilha

  1. Jerez! acabo de voltar de barcelona e o catalão meu anfitrião nem um dia me ofereceu este tipo de vinho. deve ser por conta de ser de outra região e o catalão separatista nem aí para outros sabores espanhóis. fiquei na cava mesmo mas com desejo de jerez. Miguel, sou da de fato que cuida da divulgação da importadora de cervejas tarantino e estamos lançando a italiana Baladin cujo mestre cervejeiro é um apreciador de Jerez. olha só a influencia!!! vou te enviar as infos da baladin. abraço

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    • Olá, Bride,

      Sim, é provável que a rivalidade regional tenha feito com que você não bebesse jerez na Catalunha. Se bem que a melhor companhia para aqueles frutos do mar servidos no Mercado da Boquería, em Barcelona, teria siso um bom sauvignon blanc, não?

      Obrigado pelo comentário e volte sempre.

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  2. Eu amo andalucia y en especial jerez de La Frontera… terra de minha família e minha ´segunda pátria… sempre que vou volto com 1 mala so dos famosos vinhos, jamon, churisso y claro, o vinagre de Jerez.

    Que saudade, praias y sol maravilhosos…. andalucia para mim é o melhor lugar da Espanha.

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