Brás

Rua Oriente, no Brás/ Foto: Heudes Régis

Minha história no Jornalismo começou antes, muito antes de ter cursado a faculdade e de ter entrado em uma redação pela primeira vez – lembro-me, porém, até hoje desse grande momento, que foi uma visita ao Estadão, num sábado de manhã, em 1993. Eu era um bicão e acompanhava metade da turma do 1º ano de Jornalismo da PUC, que tinha Luís Carlos Ramos como um de seus professores de, se não me engano, Introdução ao Jornalismo. Nas aulas dessa disciplina eu fazia parte da turma comandada pelo Sergio Pinto de Almeida, o Serginho.

Mas eu dizia, Jornalismo e eu havíamos sido apresentados bem antes, no fim de 1988, quando tinha treze anos. Eu acabara de ser dispensado do meu primeiro trabalho, como ajudante geral na fábrica têxtil do pai de um grande amigo meu, em regime de meio período, no bairro do Brás.

Veja sugestões de pechinchas na região do Brás.

Ao saber que eu havia sido demitido, outro colega perguntou se não queria me juntar à turma de garotos que, diariamente, entregava exemplares de um certo jornal coreano – do qual não me lembro o nome – aos lojistas assinantes do Brás.

Abre parênteses: ocorre com o Brás mais ou menos o que aconteceu com o gol mais bonito do Pelé, marcado contra o Juventus, na Rua Javari. Todo mundo que tem hoje 60 anos ou mais diz que estava lá no diminuto estádio, naquela noite em meados nos anos 60. Da mesma forma, todo mundo nasceu ou cresceu no Brás, bairro de operários vindos de Nápoles, na Itália, que, a bem da verdade, assaram as primeiras pizzas de que se tem notícia aqui em São Paulo. Uma de minhas prediletas, aliás, é a Castelões, até hoje na Rua Piratininga, um patrimônio paulistano. O popularíssimo Brás mudou, e muito, a ponto de tornar-se hoje um cult entre os que são ligados em compras e em moda. Até sua fashion week ganhou! Fecha parênteses. 

Topei o serviço na hora porque queria juntar uma graninha para passar as férias de fim de ano com uns trocados na mão. Como eu fui o último a ser recrutado para a equipe de distribuição, por assim dizer, acabei ficando com o pior roteiro de entrega, que previa passar por Maria Marcolina, Miller, Oriente, Conselheiro Belisário, Casemiro de Abreu, Carlos de Campos (no Pari) e outras tantas ruas. Como precisaria de um meio de transporte, comprei a bicicleta do meu amigo, uma Caloi Extra Nylon, e comecei a trabalhar.

Assim, naqueles útimos dias de novembro e nos primeiros de dezembro de 1988 eu chegava diariamente às 2 da tarde ao ponto de encontro, um restaurante na Rua Miller, pegava meus 30 ou 40 exemplares, colocava na mochila e saía pedalando pelo bairro. Lembro-me da Kombi descarregando as pilhas de jornal e do fuzuê que a molecada fazia para recolher seus exemplares a fim de começar logo a entrega e terminar no menor prazo possível, não sem antes recolher a “caixinha de Natal”. 

Grande dica que um dos garotos me passou foi essa, de apelar para o coração dos comerciantes e pedir a caixinha natalina. Logo nas primeiras entregas ouvi um “No-en-ten-do-vo-cê-fa-laaa” de um coreano pão-duro mas ao fim desses 30 e poucos dias de trabalho faturei mais de gorjeta do que propriamente do salário. Comprei uma calça, um par de tênis e fiquei com um dinheirinho no bolso.

Não entendo uma palavra em coreano. Volto ao Brás de vez em quando. Contribuo com a caixinha dos funcionários do prédio onde moro a cada Natal.

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