Meu relato selvagem no (d)reformado Frevinho

“Relatos Selvagens”, você sabe, é um filmaço argentino de 2014. Nas palavras do xará Miguel Barbieri Júnior, crítico de cinema da Vejinha, as seis histórias narradas “trazem a vingança e o humor como tema”. Foi indicado, merecidamente, ao Oscar de Filme Estrangeiro.

Lembra-se de “Um dia de Fúria”, com Michael Douglas? A cena na lanchonete? Pois é.

Quando saí do Espaço Itaú de Cinema, na Rua Augusta, e decidi seguir para o Frevo a fim de comer um beirute, senti-me mais ou menos como o personagem de Douglas e como o de Darín numa das histórias de “Relatos”. Até dois anos atrás, morei ali no bairro da Consolação e a dobradinha cinema + Frevinho era programa perfeito, porque não precisava pegar o carro. Era só caminhar, conversar sobre o filme e relaxar.

Algumas semanas antes eu havia passado por ali e visto que a fachada da lanchonete estava escondida por uns tapumes. Ou teria encerrado as atividades ou seria reformada, pensei.

De fato, foi reformada. E foi aí que comecei a me imaginar num cenário do filme que acabava de ver. A reforma ficou horrível. O ambiente retrô, as velhas mesas com a gradinha embaixo do tampo, tudo isso já era.

O salão agora ganhou uma iluminação exagerada e a acústica transforma qualquer conversa em gritaria. Quer comer um beirute em paz? Esquece.

Quer acabar com um endereço clássico? “Pergunte-me como”, dirão o dono e o arquiteto do Frevo.

À medida que caminhava em direção à única mesa disponível àquela hora do sábado, a última no fundo do salão, antes da escada e ao lado do extintor de incêndio (informação importante), minha irritação só aumentava.

Subiu alguns níveis quando uma garota, ao tentar se sentar na mesa de trás, deu um baita empurrão na minha cadeira.

E bateu no teto quando percebi que, além dela, outras quatro pessoas sem-noção tentavam se acomodar naquele mísero metro quadrado.

A gangue foi bem sucedida nesse intento, mas à custa do bloqueio de todo e qualquer acesso entre o ponto em que eu estava e o restante do salão.

Eu não tinha como sair do lugar, ou mesmo recuar 2 centímetros, e o garçom não conseguia chegar para tirar o pedido.

Olhei para o extintor de incêndio e pensei: “e se eu pegasse esse negócio e…”. Meu devaneio foi providencialmente interrompido pelo garçom, que havia conseguido serpentear o corpo magricela por entre as mesas e me entregava o cardápio.

Pedi um chope, um minibeiture de atum (felizmente preservados) e comentei com o velho garçom (felizmente preservados também) que eu havia reprovado a mudança. Ao mio que reconhecer este freguês de anos, ele confidenciou: “é… ficou péssimo!”

A franqueza revelada pela voz por trás daquela gravata borboleta soou como um consolo.

E tive a certeza de que a minha paciência, o meu humor, a minha sanidade são testados a partir do momento em que eu acordo.

Frevo. Rua Augusta, 1563, Consolação, tel. (11) 3284-7622.

O beirute e a gravata do garçom do Frevinho: clássicos / Foto Mario Rodrigues

O beirute e a gravata do garçom do Frevinho: clássicos / Foto Mario Rodrigues

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