Uma ‘prainha’ em Higienópolis

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Salada de frutos do mar do Prainha / Foto. Miguel Icassatti

O carnaval de 2018 vai dar seus últimos suspiros neste fim de semana, o horário de verão termina na noite deste sábado e até o outono parece ter chegado antes da hora, não é?

Mas para quem, assim como eu, gosta muito desta época do ano (que deveria estar com os dias ainda beeem quentes), hoje vou indicar um botecaço que tem tudo a ver com a estação: é o Frutos do Mar Prainha, em Higienópolis.

O Prainha existe desde 1994 e ocupa uma esquina, com mesas dispostas no pequeno salão e na calçada. Tudo ali é pra lá de simples, desde o mobiliário interno até as mesas de plástico da calçada, justamente. É um típico boteco de bairro, com freguesia fiel, que muitas vezes conhece os funcionários, como o Eugenio, o Cafu, pelo nome.

À exceção de uma ou outra opção de porções de carne – entre elas a de pernil, que é mesmo boa e custa 48 reais – o cardápio se volta para os peixes e frutos do mar.

Servidos em iscas, por exemplo, tem o pintado e o linguado, a 52 reais a porção.

A casquinha de siri, cada uma, sai a 12 reais.

Quem prefere as frituras pode optar pela lula a doré, 48 reais, ou a manjubinha, 36 reais a porção – esses peixinhos crocantes mais uma cerveja gelada… ah, isso vai que vai!

Nesta visita mais recente, optei pela salada de frutos de mar, que na verdade é um misto de pescados marinados em um molho vinagrete feito com cebola e bastante pimentão.

O garçom me disse que muita gente ali prefere pedir quando a marinada é feita no dia anterior. O prato é gigante vem com polvo, sardinha, lula e mariscos. Custa 60 reais.

Para beber, vale pedir a caipirinha, cerveja gelada ou mesmo uma dose de cachaça. Entre as mineiras, por exemplo, tem a Germana e a Claudionor.

Frutos do Mar Prainha. Rua Martinico Prado, 344, esquina com Rua Martim Francisco, em Higienópolis.

 

 

 

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Boteco na peixaria

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Foto: Miguel Icassatti

Depois de tanta energia dispensada no período do Carnaval – e, por quê não, também para repô-la para este fim de semana, que ainda terá blocos desfilando – acho legal indicar um lugar que sirva algo que dê uma trégua para o nosso fígado.

Sabe onde? No Pacífico Pescados. Como o próprio nome faz supor, eu estou falando de uma peixaria, sim, que mantém, desde 2016, um sushi-bar em funcionamento.

A peixaria existe desde 1949, numa travessa da Rua da Consolação. Quando morei ali na região, era freguês da Pacífico – pena que na época ainda não havia esse bar, que foi montado na frente do salão, que por sua vez passou por uma reforma, após a qual a peixaria foi para os fundos. Algumas mesas de madeira ocupam a área da frente também.

No cardápio tem os triviais de todo sushibar, mas ali a sensação é de que tudo é mais fresco.

Por exemplo, tem sashimi (de qualquer peixe) a 12,50 a porção de 5 fatias.

Sushi, a porção com 6 duplas de peixes e frutos do mar variados sai a 33,00.

Eu fui numa das cinco opções do combinado que leva temaki.

Pedi um temaki de atum + 3 sashimis e 2 niguiris por 25,50, de atum e salmão.

Há também mais versões de combinados, só de sushi e sashimi, com peixes variados e quantidades diversas também.

Pra quem gosta de ceviche, a porção custa 20 reais, e pode ser feita com salmão, atum e tilápia.

A oferta de bebidas é que é fraca, tem só refrigerantes e sucos de latinha, água e cerveja.

Em compensação, dá pra levar boas postas de peixe e de frutos do mar pra casa e garantir um bom almoço ou jantar, ok?

Pacífico Pescados. Rua Fernando de Albuquerque, 288, Consolação.

 

Batata!

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Foto: Pixabay/ Creative Commons

Em seguida ao pão, não há alimento mais gostoso do que a batata. Em terceiro lugar vem o pão de batata. Isto posto, não existe modo de preparo melhor do que à portuguesa: fatiada em rodelas finíssimas e fritas. E crocantes.

Em alguns botecos  restaurantes, a batata à portuguesa acompanha pratos clássicos, como é o caso do filé à Osvaldo Aranha do centenário Café Lamas, no Rio de Janeiro.

Por falar em Rio, ou melhor, em São Paulo, quem faz uma batata à portuguesa excelente é o chef Alencar, do Santo Colomba, nos Jardins. O Santo Colomba está longe de ser um boteco, mas para quem aprecia bares é um lugar ao qual se deve ir ao menos uma vez na vida.

É que ali foi montado o lindíssimo bar – balcão, prateleiras, vitrais – que pertenceu ao Jockey Club do Rio de Janeiro no início do século XX.

É a coisa mais linda.

Quem tiver a chance, vá até lá, sente-se ao balcão, peça uma caipirinha e uma porção de batata a portuguesa e relaxe.

Outro lugar que tem uma deliciosa porção de batata à portuguesa é o Santos, no bairro do Pari. A casa existe desde os anos 1940 e faz parte da minha infância.

Uma vez lá, peço bolinho de bacalhau, contrafilé à parmigiana ou sardinhas assadas na brasa. Não importa qual seja o prato principal, não dispenso uma porção de batatas à portuguesa.

Saio sempre feliz de lá.

Santo Colomba. Alameda Lorena, 1157, Jardins.

Casa Santos. Rua Conselheiro Dantas, 92, Pari.

 

 

Cabeça de porco

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Uns meses atrás, em Lisboa e na companhia de bons amigos que tenho em Portugal – os lisboetas que não me leiam mas eram todos portistas -, vivi uma das minhas mais surpreendentes experiências gastronômicas, ao ter sido convidado para um jantar num lugar chamado Cozinha Popular da Mouraria.

A Cozinha Popular da Mouraria é um lugar que oferece refeições aos pobres, a refugiados e desamparados. Refiro-me, aqui, a comida das boas. Nessa ocasião, noite de domingo, alguns dos melhores chefs portugueses iria cozinhar para nosso grupo. Melhor dizendo, iria cozinhar uns para outros e nós teríamos o prazer de participar desse festim. Seríamos como que intrusos, num ambiente em que eles não teriam de se preocupar com medidas de ingredientes, com clientes ansiosos, nada disso. Estariam ali pela delícia de cozinhar.

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E assim foi. Nessa orquestra comandada pelo chef Rui Martins estavam, por exemplo,  José Julio Vintém, que até se aventurou anos atrás num restaurante no Recife, mas voltou ao Alentejo e abriu uma tasca (um boteco); e o André Magalhães, da Taberna da Rua das Flores, um dos melhores restaurantes de Lisboa e no qual comi coisas muito diferentes quando lá estive em 2016 – ele é angolano e prepara coisas de seu país natal.

Éramos umas 40 pessoas, num clima espetacular, de comunhão.

Nós, os intrusos, levamos garrafas de vinho, taças e os chefs entraram com a comida. Uma peça de chuletão brilhantemente assada, linguiça, um arroz de pato rico, pães e mais pães.

Ali eu tive, uma vez mais, uma aula de gastronomia no sentido de que é possível aproveitar de tudo, de todas as partes de um animal, quando ele é utilizado para nossa alimentação.

Em dado momento, André Magalhães, com sua boina de lado à la Michael Jackson nos anos 70, apareceu no salão com colher de pau e panela na mão, a oferecer a nós uma mistura curiosa: cabeça de porco ao molho de miolos do próprio animal, a “mioleira”.

Há diversas maneiras de se preparar os miolos (o cérebro, para os mais céticos), a alentejana, em pedacinhos empanados. E há inúmeras maneiras de aproveitar a carne da cabeça de porco: as bochechas, a pele, cada pedacinho mais delicioso que o outro – conforme pude testemunhar e comer mais de uma vez, entre elas a ocasião da foto abaixo, em 2015, na quinta de um amigo em Ponte de Lima, região do Minho, norte de Portugal.

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Voltando àquela mioleira preparada pelo André, essa trazia os pedaços enlameados em um molho grosso, com muitas especiarias, limão, com uma textura como se fosse a de um curry.

Uma delícia, perfeita para ser “xuxada” em uns nacos de pão. O que fiz.

Baixo Augusta ou Minas de Baixo?

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Não sei se vocês – em especial os que circulam pelo Baixo Augusta – repararam, mas, aquela região, que deve receber alguns milhares de pessoas neste Carnaval, se tornou um pólo de bares e restaurantes especializados na comida mineira – ou que pelo menos levam Minas no nome.

Aquele quadrilátero entre Rua Luís Coelho, Bela Cintra, Matias Aires e Frei Caneca poderia ser chamado tranquilamente de “Minas de Baixo”, em vez de Baixo Augusta.

São pelo menos cinco casas à mineira nesse perímetro.

Vamos lá:

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Na esquina da Rua Bela Cintra com a Luis Coelho está o Segredos de Minas, que tem uma filial na Haddock Lobo. Vizinho de parede dele encontramos o Terraço de Minas.

Na Antonio Carlos fica o Mineiro Prime e na Matias Aires, também vizinhos, estão o restaurante O Mineiro e o Boteco de Minas, ao qual fui na semana passada.

Em comum, essas casas têm também algumas características, que remontam ao jeito mineiro de comer, se a gente considerar que nos botecos mineiros temos muitos pratos com sustança. Dois exemplos diretos de BH são o Café Palhares, e seu famoso kaol (prato feito de couve, arroz, ovo, linguiça e farinha, acompanhado de cachaça) e o Casa Cheia, no Mercado Central, com uma infinidade de receitas fartas para o almoço.

Pois esses mineiros do Baixo Augusta servem pratos feitos com muita comida, que custam em torno dos 20 reais – não é à toa que vivem lotados na hora do almoço – e no fim da tarde ainda viram ponto de encontro na happy hour.

A bem da verdade, valem a visita mais pelo custo-benefício do que pela criatividade ou pelo, digamos, talento na cozinha.

No Segredos de Minas, no almoço de todos os dias são 12 pratos executivos. O mexido mineiro (arroz, feijão tropeiro, ovo, torresmo e banana) custa 17,90.

O Terraço de Minas serve um PF gigante de arroz, feijão, carne moída e 3 pasteis de queijo por 21,90. E também faz receitas para ser compartilhadas, como o tutu de feijão, para três ou quatro pessoas.

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No Boteco de Minas, um PF de arroz, feijão (carregaaado no alho), legumes e filé de frango à milanesa me custou 16,90. Mas a feijoada é bem gostosa. Ali acontece um festival de caipirinhas, a 14,90 cada uma. E confirmando a tradição, um barrilzinho cheio de cachaça fica à disposição para quem quiser pegar uma dose na saída.

Boteco de Minas: Rua Matias Aires, 86

Segredos de Minas: Rua Bela Cintra, 919

Terraço de Minas: Rua Haddock Lobo, 179

* Texto editado, que reproduz minha coluna Cultura de Boteco, na rádio Band News FM, que foi ao ar hoje.

Salvem (usem) os mercados

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Mercado da Ribeira, em Lisboa / Foto: Miguel Icassatti

Já há alguns anos eu tenho ido com alguma frequência a Portugal, graças ao trabalho como correspondente do grupo Essência do Vinho, do Porto, que publica a Revista de Vinhos, mais importante publicação do segmento no país – e uma das mais prestigiadas no mundo.

Na visita mais recente, em novembro de 2017, fiquei vários dias em Lisboa e pude explorar algumas regiões. Uma delas, a do Cais da Ribeira, era uma zona deteriorada da cidade – essa é a memória que eu guardava desde minha primeira ida à cidade em 2006.

Mas eis que tudo mudou por ali e um símbolo dessa mudança, positiva, é claro, é o Mercado da Ribeira.

Esse mercado foi restaurado em 2014 depois de décadas de um quase abandono. Desde então, além dos boxes de frutas, peixes e elementos em geral surgiram 30 pontos gastronômicos, entre bares e restaurantes de chefs badalados por aqui.

Por volta das 10 da noite o Mercado estava absolutamente lotado, com gente se servindo nos boxes/estandes e indo se acomodar nas mesas coletivas. Ouvi sotaque em inglês, francês, alemão e até português aí da Mooca, o meu.

Esta é a terceira vez que venho ao Mercado desde 2015 e já é um dos meus lugares preferidos na cidade. E o legal é que as ruas no entorno, antes escuras, ermas e nada convidativas, ganharam restaurantes, bares e – o principal – com muita gente na rua. Ou seja, a cidade ganhou.

Então, é inevitável comparar essa experiência de nossos irmãos portugueses com a situação dos mercados em São Paulo, que abrigam muitos bares e botecos sensacionais.

No Mercado da Lapa, por exemplo, eu gosto de ir pra comprar miúdos, carnes e alguns temperos, e aproveito para comer um sanduíche na Casa da Mortadela.

No Mercadão Municipal, não tem como não se divertir com o fuzuê, as cores, os cheiros e a confusão nas barracas de frutas, açougues e peixarias e finalizar as compras num dos bares do mezanino. Eu gosto demais do Mortadela Brasil e do Elidio, além do Bar do Mané e do Café Jardim.

E no de Pinheiros, tenho ido à Comedoria Gonzalez comer o delicioso choripan da casa.

Esses dois últimos mercados, aliás, até que passaram por reformas, vieram a ser mais frequentados, mas eu sinto falta dessa conexão maior com a cidade. Poderiam ser mais bem aproveitados em dias e horários alternativos, poderiam ser o gatilho para que as ruas do entorno também ganhassem mais vida.

No caso do Mercado da Ribeira, o sucesso é fruto de investimento privado, apoio do governo local e a crença por parte da população de que vale a pena valorizar esse lugar.

Da minha parte, convido você, raros leitores,  a conhecerem ou voltarem a frequentar esses e os outros mercados paulistanos, seja para fazer uma comprinha, seja para tomar uma cerveja, seja para petiscar. Não haverá programa mais paulistanamente legal.

Mercado Municipal. Rua da Cantareira, 306, centro.

Marcado da Lapa. Rua Herbart, 47, ao lado do terminal de ônibus da Lapa.

Mercado de Pinheiros. Rua Pedro Cristi, 89, no Largo da Batata.

Bom fim de semana a todos!

E o #tbt vem da Alemanha

 

Altes Brauhaus / Fotos: Miguel Icassatti

Em novembro passado, passei uma semana em Portugal e estiquei uns dias na Alemanha, onde vive minha irmã caçula. Era o mês de meu aniversário e fizemos uma curta mas muito gostosa viagem de duas noites pela região de Koblenz. É por isso que trago do Instagram para o blog esse #tbt para contar dessa nossa passagem pela região central do país.

A Alemanha, o leitor sabe, é um dos grandes países produtores de cerveja: são cerca de 5000 cervejarias em todo o país.

Cada bairro de cada cidade, cada aldeia têm uma cerveja para chamar de sua – muitas delas são semelhantes entre si, é bem verdade, já que os estilos predominantes são as weizenbier (de trigo) e as lager (a família das pilsen).

De qualquer forma, se quiséssemos provar um rótulo apenas, que seja, de cada uma dessas cervejarias, levaríamos cerca de 13 anos e 9 meses em degustação. Incrível!

Pois conheci mais uma delas, a Altes Brauhaus, em Koblenz, cidade localizada numa região onde são produzidos, por sua vez, alguns dos melhores vinhos brancos do mundo. Bebi vinho por lá, é claro, mas fui conhecer esta cervejaria local, que fica no centro histórico, medieval, e existe desde meados do século XIX.

Parênteses: foi só no século XIX, por exemplo, que teve início a produção de cerveja no Brasil – com a Bohemia, em Petrópolis, ano de 1853.

De lá pra cá, por mais de 150 anos, nós brasileiros acabamos por consagrar as cervejas do estilo Pilsen, que são leves e refrescantes, e produzidas pelas grandes cervejarias, mas nos últimos dez anos e, penso eu, decorrente da abertura das importações, passamos a ter novas microcervejarias e cervejarias artesanais. Segundo o Ministério da Agricultura, são mais de 500 no Brasil.

Pois a Altes Brauhaus é daqueles lugares que nos fazem voltar no tempo. Uma taberna que bem poderia ainda estar no século XIX, ou até antes, com sua decoração de paredes forradas com lambris, balcão e mesas de madeira escura, barris pelo salão e uma certa algazarra.

O centro de gravidade é justamente o balcão, onde ficam as torneiras de chope. Bebi uma caneca de uma pilsen deliciosa, amarga, da marca Konigsbacher, que é a “da casa”, e fez muito boa companhia com a porção de salsichão.

Holsten, Gilde, Jever, Paulaner (em KIel), Bitburger, Hofbrauhaus e agora a Altes Brauhaus de Koblenz. Se vou chegar nas 5000 eu não sei mas já percorri bom caminho, não?