Quer saber o que é um Boteco de verdade? Vá ao Bar do Luiz Nozoie

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Fazia tempo que eu devia a mim mesmo um retorno a este que é um dos botecos mais clássicos da cidade de São Paulo, e um dos meus preferidos, por sinal.

Estou falando do Bar do Luiz Nozoie, no Bosque da Saúde.

Luiz Nozoie é um nissei que abriu este bar em 1962. E que levou a família para trabalhar com ele. A finada e fiel companheira, Dona Shizue, tomou conta da cozinha – que Deus a tenha -, que hoje está sob a batuta da filha, Marcia.

O Bar do Luiz Nozoie é um lugar muito simples, a decoração parece ser a mesma desde os tempos da inauguração, original – sequer há placa na porta.

Não importa. É um boteco obrigatório.

Conheci o Bar do Luiz Nozoie em 1998, quando fiz minha primeira reportagem lá. Era apenas Bar do Luiz. Por um imbróglio jurídico e mesquinho do Bar Luiz, do Rio de Janeiro, o boteco da Saúde ganhou o sobrenome ali por volta dos anos 2000 e pouquinho.

Marcia herdou de dona Shizue, que morreu há uns dez anos, a tarefa de preparar os pasteizinhos, que mais parecem rissoles, e que levam até cerveja na massa. Tem de carne, de queijo e de camarão, 3 reais a unidade – CUIDADO COM O CAROÇO DA AZEITONA!

Seu Luiz já não desce ao Guarujá para pescar – seus troféus de pesca estão expostos numa prateleira – os peixes-espada e as prejerebas que trazia para dona Shizue preparar, mas os espetinhos de peixe ainda fazem sucesso. Assim como a rã à milanesa, 15 reais.

Em cima do balcão ficam expostas em caixas de vidro, diversas conservas, queijos e porções frias, para que você monte um pout-pourri.

Uma fatia de lombo de porco temperado com ervas, por exemplo, sai por 1,50 real.

O jiló recheado com uma espécie de chutney picante de cebola custa 3 reais a unidade e é sensacional!

Entre as bebidas, a Serramalte está 13 reais.

E por falar em cerveja, muitos anos atrás, o seu Luiz construiu uma engenhosidade, pra resfriar a cerveja rapidinho.

Ele encheu uma antiga máquina de armazenar sorvete com uma solução de muito gelo, álcool e sal e passou a mergulhar um samburá, uma cesta de pesca cheia de garrafas de cerveja e em 15 minutos conseguia gelar a garrafa.

O seu Luiz Nozoie está com 87 anos e ainda dá expediente no bar, às segundas, terças, quintas e sextas.

Botequeiro que se preze tem de conhecer este grande boteco de São Paulo, agradecer e pedir a bênção a Luiz Nozoie San.

Bar do Luiz Nozoie. Avenida do Cursino, 1210, Bosque da Saúde

Vamos copiar os cariocas: boteco é Patrimônio Cultural

 

Bar Brasil / Foto: Semi Yassuda

 
Não sei de quem foi a ideia, mas ela é genial: hoje termina no Rio de Janeiro o 1º Seminário Internacional do Bar Tradicional, que discute, entre outros assuntos, a história, o clima e o espaço dedicado aos botequins. O apocalíptico tema “Crise atual e estratégias de preservação” vai fechar o evento nesta tarde, que acontece na Estudantina (Praça Tiradentes, 81, centro).

Calma, gente, vamos tomar uma gelada? Não sei qual será a conclusão dos debatedores, mas os bares tradicionais não estão em crise nem no Rio nem em São Paulo ou em qualquer outro canto do país. Uns morrem, é verdade, outros nascem já clássicos, outros sobrevivem por décadas. Assim é a vida, certo?

Tanto não há crise, graças a Gobbo, o anjo protetor dos bares, que doze endereços tradicionais do Rio de Janeiro passam a ser considerados Patrimônio Cultural da Cidade, de acordo com decreto assinado na abertura do seminnário, ontem, pelo prefeito Eduardo Paes. Os mais jovens da lista estão na ativa desde a década de 1930! São eles:

Café Lamas (viva o filé à oswaldo aranha!), Bar Luiz (chopinho e salsichão, que combinação!), Nova Capela (cabrito na madruga), Restaurante Pastoria, o “28” (mais cabrito), Casa Paladino (e sua omelete de bacalhau), Adega Flor de Coimbra (b’linhux d’ b’c’lhau!), Armazém Senado (tremoço e azeitona pra acompanhar a cerveja), Bar Brasil (chope centenário), Bar Lagoa (que lindo!), Cosmopolita (aqui o embaixador do Brasil nos EUA Oswaldo Aranha inventou o… filé à oswaldo aranha), Armazém São Thiago (e aquela polpetta, hein?) e Adega Pérola (sushi de português, isto é, sardinha marinada e enrolada).

Pois terá meu voto nas eleições municipais paulistanas de 2012 o candidato honesto, capaz, comprometido com o ideal de fazer de São Paulo uma cidade melhor e que tiver ideia semelhante a essa dos cariocas, ou seja, de valorizar os botecos e restaurantes mais antigos e tradicionais como um Patrimônio Cultural local. Para dar uma mãozinha, vai aqui a minha lista, também com 12 indicados e seu respectivo ano de abertura. Como critério de seleção, além de minha preferência pessoal, adotei a idade: Todos são mais velhos do que este blogueiro.

1. Bar do Alemão (1968), sanduba de rosbife, samba e choro à paulistana.

2. Bar do Vito (1942), roll-mops (sardinha na salmoura) e cerveja.

3. Bar do Luiz Fernandes (1970) e os bolinhos de carne e de bacalhau feitos pela Dona Idalina.

Bar do Luiz Fernandes / Foto: Mario Rodrigues

 

4. Bar do Luiz Nozoie (1962) e as cervejas mais bem geladas da cidade.

5. Elídio Bar (1973), o balcão de petiscos merece um tombamento à parte. Mas eu quero a versão antiga do bar de volta!

6. Estadão (1968), o melhor sanduíche de pernil deste lado do universo.

7. Frevo (1956), depois do cinema, sempre.

8. Jabuti (1967). Polvo à vinagrete e estamos conversados.

Jabuti / Foto: Gustavo Lourenção

 

9. A Juriti (1957). Rãs e batidas de coco.

10. Léo (1940), o chope. O bolinho de bacalhau. As manhãs de sábado. E seus descendentes Barão e Amigo Leal.

11. Moraes (1929) e seu filé.

12. Pé Pra Fora (1970), a melhor varanda e o melhor filé aperitivo.

13 (…putz, errei na conta!). Valadares (1962), batata serragem e cerveja para fazer descer os testículos de boi.

E para você, que boteco mereceria o título de Patrimônio Cultural paulistano?