Bar do Giba e a voz do povo

Bar do Giba: eleito o boteco do ano por Veja São Paulo

Bar do Giba: eleito o boteco do ano por Veja São Paulo

Nesta semana circula mais uma edição anual do guia Comer & Beber de Veja São Paulo. Desta vez, a revista decidiu escolher os melhores bares, restaurantes e comidinhas da cidade pautada apenas pelo voto do internauta que visita o site da publicação. É a voz povo, digitalizada.

Se a voz do povo é a voz de Deus, Ele elegeu o fantástico Bar do Giba como o boteco do ano em São Paulo.

E Ele sabe mesmo o que faz. Havia uns bons anos que eu não ia ao Giba, até que, na sexta, recebi um convite-alerta do amigo Luis Alvim, para que fôssemos almoçar lá no sábado, antes que a maioria das bancas e assinantes da Vejinha recebessem seus exemplares e resolvessem conferir alguns dos melhores do ano já no sabadão.

Prontamente atendi, ou melhor, atendemos. Camila e eu chegamos por lá às 2 e meia da tarde e fomos os últimos a nos juntar à mesa. A turma já havia devorado uma paleta de cabrito e dado fim a umas caipirinhas e pasteizinhos (recomendo fortemente o de camarão e o de palmito).

Apesar do atraso, conseguimos alcançar os demais, ao pedirmos uma porção de barrinha de cereal (isto é, de barriga de porco frita), mais pasteizinhos e uma costela de cabrito, além de algumas garrafas de Serramalte e uma caipirinha feita com a boa cachaça Solar.

Não me perguntem o preço desses itens porque, como não há cardápio na casa, não tenho ideia do quanto nos foi cobrado por cada cosia que pedimos. Só sei que a conta total bateu nos R$ 540,00, o que significa que cada um deixou R$ 90,00 na casa.

Confesso que essa falta de menu me causa certa preguiça. Permaneço, portanto, no desfalcado time dos chatos que gostam de ver as opções e preços dos comes e bebes. Quem se queixava que o Giba só recebia pagamentos em dinheiro e cheque, a boa nova, ao menos para mim, é que cartões de débito agora são bem-vindos.

No mais, deixo meus parabéns para o Giba. Título merecidíssimo.

A lista completa dos vencedores de Comer & Beber de Veja São Paulo pode ser conferida aqui.

Bar do Giba. Avenida Moaci, 574, Moema, São Paulo, SP, tel. (11) 5535-9220.

Veloso, 7 anos

 

Veloso / Foto: Fernando Moraes

 

Foi no dia 29 de março de 2005 que o Veloso abriu, de frente para a caixa d’água da Vila Mariana, as suas duas portas de ferro pela primeira vez e exibiu ao público o piso de caquinho, o balcão de fórmica e as paredes parcialmente cobertas com fotos de artistas e jogadores de futebol – os quadros com as caricaturas de alguns fregueses e a bola de futebol que decora a prateleira do bar, enviada direto da Copa da Alemanha por um grupo de amigos da casa, viriam aos poucos.

Naquele dia, o já famoso Souza tirou o primeiro chope e montou o que seria a primeira das milhares de caipirinhas que iria servir dali em diante. Wil, um dos melhores garçons do Brasil, baixou às mesas as primeiras porções da hoje inimitável coxinha (R$ 20,00 com seis unidades) e do não menos saboroso bolinho de carne (R$ 18,40 com oito), o meu preferido, aliás.

No caixa, o patrão Otávio fechou, na ponta da caneta, orgulhoso e apreensivo as primeiras continhas.

Foi mais ou menos assim que nasceu, já como um clássico, o ariano Veloso.

Para comemorar o sétimo aniversário, Souza criou mais uma vez um menu especial de caipirinhas. Vou tentar passar lá mais tarde para provar a de pitaia com abacaxi (R$ 20,00), tá certo, Souza?

Veloso. Rua Conceição Veloso, 56, Vila Mariana, tel. (11) 5572-0254, www.velosobar.com.br

 

Petiscos coadjuvantes

No cinema, tendo a achar que o papel de ator e de atriz coadjuvante é encarado como sendo de segunda classe. A despeito disso, o Oscar é concedido, muitas vezes, a atuações de primeiríssima qualidade, aquelas que de fato roubam a atenção do espectador.

Para ficarmos em dois exemplos de atuação em que o protagonista é surpreendido, lembro da encarnação do Coringa pelo brilhante Jack Nicholson do Batman, de Tim Burton (1989) – alguém se lembra que bruce wayne era Michael Keaton? – e a irretocável atuação de Christoph Waltz como o coronel Hans Landa em Bastardos Inglórios. Waltz, ao menos, garantiu para a si a estatueta.

O leitor há de perguntar: o que essa breve menção ao cinema tem a ver com o assunto deste blog? Vou tentar explicar: em muitas casas especilalizadas nisso ou naquilo, costumo me surpreender com o acompanhamento de um prato, a guarnição ou com petiscos relegados à segunda página do cardápio.

Puxe na mamória: é impressão minha ou os melhores pães de queijo são encontrados nos coverts das churrascarias?

Pois foi a polenta frita (R$ 14,50 a porção) do Pira Grill (Rua Wisard, 161, Vila Madalena, tel. 3097-8262), no tardio almoço de sábado, que me fez pensar nesta história. Fazia mais de ano que não almoçava ali. Entre as especialidades grelhadas, fiquei surpreso também com o delicioso e marcante tempero do frango (na verdade, pedi meia porção e paguei R$ 18,50).

Cortada em cubos, a polenta tem a casca crocante, bem sequinha. O segredo é esperar uns minutinhos até ela esfriar um pouco – sai da cozinha pelando! – e abrir ao meio esses dados de fubá de milho para perceber o seu úmido e salgado recheio. Tenho a impressão de que ali no Pira Grill é frita a melhor polentinha desta cidade.

Além dessa sugestão, deixo uma lista de petiscos que, embora pareçam coadjuvantes, roubam a atenção dos paladares mais atentos:

Ao Chopp do Gonzaga, Avenida Ana Costa, 512, Gonzaga, Santos, tel. (13) 3284-8940.
– Coadjuvante: para atacar o ótimo molho de cebola preparado nesse tradicionalíssimo endereço de Santos, não espere pelas carnes. Pegue meio pãozinho, cavuque o miolo e preencha o espaço com as lâminas de cebola curtida.

– Principal: o espetão à moda da casa, com carne, lombo de porco e linguiça calabresa.

Bar do Sacha, Rua Original, 89, Vila Madalena, tel. 3815-7665.
– Coadjuvante: a porção de mandioca cozida puxada na manteiga, bem amarelinha, me faz lembrar da que minha vó preparava. No próprio quintal de sua casa em Ponta Porã (MS), ela arrancava a raiz, limpava, descascava e levava à mesa. Melhor companhia a um bom churrasco não há.

– Principal: a costela assada no bafo.

Burdog, Avenida Doutor Arnaldo, 232, Pacaembu, tel. 3151-4849.
– Coadjuvantes: não dá para ignorar a maionese feita na casa e a porção de anéis de cebola frita.

– Principal: o cheese salada.

Carlinhos, Rua Rio Bonito, 1641, Pari, tel. 3315-9474.

– Coadjuvantes: o arais (foto), cafta que vai à chapa prensada no meio de duas bandas de pão árabe, é um perigo. Você corre o risco de repetir uma, duas, três vezes e deixar de provar outras boas opções de tempero armênio no cardápio.

– Principal: embora o restaurante se autoproclame “rei da picanha”, pule esse item, junte uma dezena de amigos e encomende o carneiro inteiro recheado de arroz e amêndoa.

Pasquale, Rua Amália de Noronha, 167, Pinheiros, tel. 3081-0333.
– Coadjuvantes: depois de refestelar-me com a seleção de antepastos preparados na cantina, entre eles a abobrinha grelhada e o queijo cacio cavalo, não sobra muito apetite para outras experiências

– Principal: as massas cantineiras.

Totò, Rua Doutor Sodré, 77, Vila Olímpia, tel. 3045-1966.

– Coadjuvantes (?): bom, se levarmos as coisas ao pé da letra, estaremos falando de um restaurante italiano. Mas a verdade é que o bar – não por acaso montado no meio do salão – divide iqualmente com as massas frescas as atenções de quem chega à casa. Sócio do local, Alfredo Martins (foto) divide a bancada com Dantley de Souza e prepara espetaculares caipirinhas. Se você tiver a sorte de ser obrigado a aguardar por uma mesa, não hesite em puxar uma banqueta e ficar ali, à esquerda do balcão, a observar o minúcia com que a dupla corta as frutas antes de misturá-las às doses precisas de cachaça, vodca ou saquê. Sou fã da caipirinha de caju com limão-cravo e mexerica.

Aluga-se


“Vou falar de um bar que não existe mais. No Peru’s da Rua Julio de Castilhos, no Belém, a menos que você fosse para almoçar ou para enfrentar a feijoada de sábado, no recatado salão dos fundos, comia-se de pé ou sentado em uma das seis banquetas velhas e bambas, de frente para os dois balcões.
O chope era ruim, a caipirinha, melhor, mas o que movia a gente até lá eram os sanduíches. Não havia na cidade coisa melhor que o churrasco completo – que os menos íntimos, olhando para a tabela de preços, chamavam de jacaré.
Para ter uma idéia, aos sábados o serviço de delivery entregava cerca de 400 desses lanches, feitos com filé, queijo, maionese, alface, tomate e um molho de repolho inigualável. Foi no Peru’s que aprendi a gostar de bares.

Tinha 8 anos e fui adotado como mascote de um time de futebol de salão formado por vizinhos. A história é longa mas o que interessa é saber que, se a Mooca tinha o Juventus, o Belém era o berço do Proálcool Futebol Bebuns e Mulher. E o Peru’s era a casa onde o Toninho, o Marquinho, o Paulinho, o Bê, o Zinho, o Clóvis, o Gerente, o Dilsão e cia. iam comemorar, todo sábado, depois do meio-dia, as vitórias e lamentar os raros revezes. Meu guaraná e meu churrasco iam “para a conta”, assim que o Juarez, o garçom, passava o pedido ao chapeiro, que podia ser o Nonô ou o Luiz. E as tardes de sábado seguiam a churrasco e guaraná.
Esse Peru’s se foi no dia 27 de março passado, quando surgiu o novo e moderno Peru’s, na Rua Cajuru. Há tevês de plasma nas paredes, uma churrasqueira e um clima de restaurante-família. O churrasco (R$ 7,80) continua sendo o melhor sanduíche de São Paulo, afinal Luiz e Nonô ainda tomam conta dele – o serviço de entrega está temporariamente suspenso porque a chapa nova ainda deixa a carne “para viagem” muito ressecada. A feijoada, preparada pela equipe do velho Dito, 28 anos de cozinha, agora é servida em bufê (R$ 25,90, mesmo preço do almoço variado dos dias de semana). O chope melhorou (R$ 3,50) e alcançou a excelência da caipirinha (R$ 7). Mas o Peru’s, o meu bar, morreu. Assim como o Zinho e o Marquinho,
um goleiraço.”

O texto acima está entre aspas porque foi reproduzido da edição do Guia do Estadão de 11 de maio de 2007. Foi o último que escrevi antes de meu retorno a VEJA.

Decidi copiá-lo porque voltei ao Peru’s no sábado, ao fim do futebol de todas as manhãs – depois de três semanas sem jogar, o máximo que consegui fazer foi dar o passe para dois gols e deixar o meu, de pênalti…

Quanto ao Peru’s, bom, o chope, realmente, está melhor. Não tomei caipirinha. A feijoada agora é apenas mais uma opção do farto bufê de almoço por quilo (R$ 28,90). Nem cumbuca tem mais.

No cardápio, o churrasco não é mais apresentado como “jacaré”. Mas continua sendo o melhor do mundo.

O movimento aumentou, a casa estava cheia, os donos do bar devem estar felizes da vida. A alma do velho Peru’s, porém, as pessoas encostadas no balcão surrado, a porta estilo saloon, o tiozinho vendendo a fração da Loteria Federal, a cumbuca, tudo que inexplicavelmente tornavam-no um boteco ímpar, tudo isso se foi, já era. A dolorida verdade é que não é mais um boteco.

Passado um ano, a placa de “Aluga-se” ainda está lá, no número 804 da Júlio de Castilhos. Saudades do meu bar.

Peru’s. Rua Cajuru, 1.164, Belém, tel. (11) 6694-6861/7525.

O fazedor de caipirinhas

Foto: Leo Feltran
Não espere que o barman Alfredo Martins lhe dê ouvidos como bem faz, por exemplo, Souza, do Veloso, caso você esteja assim meio constrangido por estar do lado de cá do balcão e se sinta na obrigação de quebrar aquele silêncio desconfortável de elevador. Ou que ele tenha a boa-pracice de um Derivan, que hoje recebe e monta mojito atrás de mojito para a clientela no enfumaçado Esch Café.
O “boa noite” de Martins costuma ser no limite da boa audição e da educação, pouco mais do que um aceno de cabeça. Há clientes de primeira viagem que se incomodem com esse jeito do anfitrião, existe quem não dê a mínima e prefira se ater àquilo que ele sabe fazer de melhor no restaurante Totò, do qual é um dos sócios: as caipirinhas.
Sentar-se numa banqueta e ficar ali ao lado de Martins vendo-o dosar mililitricamente o açúcar e a cachaça ou juntar dois quartos de um limão ao toque ligeiro de três dedos para preparar os drinques é tão divertido quanto provar à mesa, logo mais, uma das boas massas do cardápio, a exemplo da lasanha de abobrinha, gratinada e envolvida por todos os lados num molho rosé caudaloso.
Nessa quarta visita ao Totò, reparei que Martins costuma ocupar a ponta-direita do balcão de tampo de granito retangular. Nos dias de maior movimento, trabalha ao lado de outros barmen.
Caixas com vistosos cajus, limas-da-pérsia, carambolas, limões-cravo, kiwis, uvas e cirigüelas (ou umbus), entre outras frutas, mantêm a distância entre quem faz e quem vai beber as caipirinhas. E são a parte perecível do arsenal que contém ainda um pilão e uma tábua de plástico, uma afiadíssima faca e copos de vidro fino e fundo bojudo, perfeitos para acolher e manter, do primeiro ao último gole, o frescor das misturas que Martins propõe.
A cajurica é, por assim dizer, um clássico do Totò, que em 2008 completa dez anos: leva mexerica, limão-cravo, caju e vodca ou cachaça, no caso a deliciosa mineira João Mendes, fabricada em Perdões.
Outras caipirinhas combinam, por exemplo, abacaxi com isso, cirigüela com aquilo, uma fruta vermelha com outra. Há uma surpreendente versão de frutas verdes, feita com kiwi, carambola e uva thompson, melhor com vodca.
Naquele estágio em que o drinque já está quase no fim, com o gelo derretido, não fique constrangido de puxar os pedaços de fruta com a ponta do canudinho e comê-las embebidas no álcool.
Como acontece nas boas mesas da Itália, terá sido uma providência tão trivial quanto limpar do prato, com o miolo do pão, um bom molho de uma massa.
Totò. Rua Doutor Sodré, 77, Vila Olímpia, tel. (11) 3841-9067. Fecha segunda.