Futebol no bar: um direito de todos

Faz quinze minutos que o Tricolor está em campo no Defensores del Chaco para o jogo contra o Nacional do Paraguai pela Copa Libertadores. Como o horário da partida – começou às 19 horas – é bizarro, não vou ter tempo de sair da redação, passar no supermercado e comprar umas latinhas de cerveja já geladas, a fim de ver o jogo no conforto de casa.

O jeito vai ser correr para algum bar a tempo de acompanhar o segundo tempo. Tô pensando, talvez chegue em Perdizes em 15 minutos e descole uma mesinha boa ali na calçada do Autêntico, na esquina da Caiubi com a Campevas. Hum…, só a lembrança daquele colarinho cremoso já me faz salivar pelo chope desse boteco em que a maioria das noites (e tardes de sábado, quando monta um bufê de boa feijoada) transcorre na maior tranquilidade.

A ligação perfeita entre boteco e futebol, imagino, deve existir desde aquele 15 de abril de 1895, dia em que Charles Miller reuniu os colegas da São Paulo Railway em alguma taberna do Brás para comemorar os 4 x 2 contra o time da Companhia de Gás.

Já nos tempos da TV Tupi, esse casamento ganhou um belo upgrade, quando algum dono de boteco resolveu puxar uma extensão e colocar um aparelho preto-e-branco, de tubo, em cima da geladeira. Afinal, a freguesia tinha de acompanhar o Brasil x Itália, o Fla X Flu, o Choque-Rei ou algum outro clássico enquanto tomava a sua cervejinha.

Eis que o tempo corre, o drible passa a ser visto como desrespeito e o futebol no Brasil vem a ter dono. Um dono que decide que não, nada dessa história de bar transmitir jogo de Copa do Mundo. “Só mediante autorização da FIFA ou da emissora licenciada”.

Pois é, nós, torcedores e botequeiros quase tivemos de engolir essa, caso quiséssemos assistir em um bar as partidas da Copa do Mundo da África do Sul.

O fato é que aquele estabelecimento que não quiser preencher no site da FIFA – em inglês – o requerimento de transmissão terá de seguir algumas “exigências”, tais como:

– não cobrar ingresso para ter acesso ao bar;

– partidos políticos e candidatos não podem ser associados com a exibição dos jogos (pergunta do blogueiro: se eu decidir me candidatar ao cargo de vereador e decidir juntar uns amigos para ver um jogo no bar, corro risco de ser punido pelo TRE?);

– o sinal da TV deve ser transmitido na íntegra, incluindo os intervalos comerciais (sugestão do blogueiro: para que o cliente não perca um segundo sequer dos maravilhosos comerciais, que tal instalar monitores de 14 polegadas em cada um dos mictórios e reservados no banheiro?).

Convenhamos, seria o fim da picada. Felizmente, não vai ser.

 

Autêntico. Rua Campevas, 320, Perdizes, tel. (11) 3873-0455.