Brera, os panini ‘de boy’ e o bom exemplo do garçom

Passaram-se quatro ou cinco meses desde a inauguração do Brera, um bar-sanduicheria aberto nos Jardins, até que, na noite do sábado, fui conhecer a casa. E, antes de esclarecer o porquê, digo que gostei, e muito dali.

O Brera ocupa uma espécie de sobrado do lado esquerdo da rua, em sua parte plana. Um terraço em nível elevado em relação à calçada acomoda uma mesa coletiva ao redor da qual, em noites gostosas como foi a de sábado, turmas podem se reunir num certo clima de dolce far niente. Essa impressão ganha força ainda mais quando, de passagem, ouve-se pessoas falando em italiano. Algo que ali não acontece por acaso, porque alguns dos donos nasceram na Bota.

Lá dentro, num ambiente à meia-luz, as paredes são cobertas por réplicas com fotos em preto-em-branco de padeiros e padarias italianos do fim do século 19 e início do 20. Uma delas é esta:

Padeiro italiano, em foto de 1865: belas imagens nas paredes do Brera

Padeiro italiano, em foto de 1865: belas imagens nas paredes do Brera

Especializado em panino, o local trabalha com frios, queijos e demais ingredientes de primeira, expostos aos clientes no balcão instalado logo à direita da entrada do salão. A imensa maioria dos itens — da mortadela de Bolonha ao presunto de Parma — é importada da Itália. As exceções ficam por conta do pão (produção especial da padaria Em Nome do Pão, especialmente para o Brera, e que tem assim uma textura de ciabatta) e dos itens de salada. E os frios são cortados na hora, como bem fazem as boas padocas.

Para cada uma das 20 e poucas combinações, há dois tamanhos: o padrão, digamos assim, que vêm a mesa disposto sobre uma tábua e acompanhado e de uma salada, e o míni, que é servido num pão menor, quase do tamanho do nosso francês.

Primeiro, provei o langhe, que é montado com presunto cru de Parma maturado por 18 meses, queijo brie, tomate, azeite trufado piemontês (em tempo: bem suave, cujo delicado sabor integrou-se aos demais ingredientes) e rúcula (R$ 23,90/ R$ 12,50 o míni).

Langhe: boa opção de panino

Langhe: boa opção de panino

Em seguida, pedi o longobardo, composto de mortadela, qeuijo gorgonzola, tomate, anchovas e mostarda (R$ 22,90/ R$ 11,50), também saboroso.

A primeira boa surpresa, porém, tive logo que pedi uma taça de vinho para acompanhar a refeição. O syrah (R$ 14,00) havia acabado e o garçom me ofereceu o nero d’ávola, cuja taça custa R$ 19,00, pelo mesmo preço do primeiro.

Taí um exemplo que deveria ser seguido por todos os estabelecimentos.

Brera. Rua Ministro Rocha Azevedo, 1068, Jardins, tel. (11) 3895-5855.

 

D4: parece Baixo Augusta, mas está nos Jardins

D4: ambiente mezzo indie, mezzo fashion

A caveira feita com Lego, que aparece na foto acima, foi a primeira coisa que chamou a minha atenção quando cheguei ao D4 Boteco Galeria. É uma obra do artista Alê Jordão que está (ou estava, pelo menos até o dia em que visitei o bar) à venda por 80.000 reais.

Naquela hora lembrei-me do meu sobrinho Torben que, aos 5 anos, é um ás do Lego. Ele é capaz de passar horas, dias, semanas montando todo tipo de coisa: já deu forma a espaçonaves, a uma Kombi, a barcos, trens, castelos mil.

Torbinho, pensei, é um artista. Fiquei ainda mais convicto quando me aproximei do caveirão e notei que, na real, a obra à venda no D4 é apenas revestida de peças Lego: trata-se de um molde em forma de caveira, em cuja superfície as pecinhas foram coladas e encaixadas. Uma autêntica cabeça oca — de Legos, ao menos.

De todo modo, a caveira combina em cheio com o visual meio alternativo do ambiente, que tem as paredes do térreo e da pista, no mezanino, grafitadas. Se você chegar vendado ao bar, que foi aberto em agosto de 2012, num primeiro momento vai achar que está em algum lugar do Baixo Augusta, até notar que o público que chega tem mais a ver com os Jardins, mesmo, e está mais para, como dizem, “fashionistas”: garotas e rapazes esguios, na faixa dos 30, e um certo ar gay friendly.

Da carta de bebidas, vale a pena apostar nos drinques, sejam eles os clássicos (negroni, bem gostoso, equilibrado, R$ 22,00) ou os da casa, a exemplo do john coltrane (vodca, mel, lemoncello e licor de amora Chambord, R$ 26,00). Entre os petiscos, a porção joan miró é bem feita e foge da mesmice (bolinhos de risoto de ragú de cordeiro, R$ 26,00).

Depois das 23h, a pista de dança começa a esquentar, ao som de eletro, funk e rock.

D4 Boteco Galeria. Rua da Consolação, 3417, Jardim Paulista, tel. (11) 2338-8910, http://www.d4botecogaleria.com.

 

 

 

Boa supresa no Lorena, 1989

De uns meses para cá aquele trecho da Alameda Lorena que fica entre a Rua Augusta e a Avenida Rebouças voltou a ferver como há anos não se via – alguém se lembra do Victoria Pub? Bons tempos…

Do tradicionalíssimo Antiquarius ao Osteria del Pettirosso, esses últimos quarteirões vêm reunindo variados endereços de diferentes especialidades gastronômicas.

Uma das novidades, inaugurada no primeiro semestre de 2010, é o Lorena, 1989, que tem como sócio e chef Leo Botto, ex-La Frontera. Estive lá no sábado à noite depois de ter assistido ao bom A Vizinha, em cartaz na Mostra de Cinema.

Por volta das 10 da noite havia uma óbvia espera por mesa no restaurante. Estávamos num grupo de seis pessoas. Como, por sugestão do solícito garçom Ricardo, não nos importamos em pegar uma mesa logo no salão de entrada, a espera acabou sendo breve.

O salão do fundo, maior e de pé-direito alto, fica num nível inferior. A varanda, também movimentada, ganha um clima de bar, com público bem à vontade. Havia muitos casais e algumas turmas por ali. Quem passa pela rua tem a impressão de que se trata de um bar. Ao entrar o visitante se surpreende com o clima badaladinho, um astral aasim meio Le Jazz (refiro-me ao astral, não à decoração).

Para acompanhar a cervejinha (Heineken long neck, por caros R$ 9,00), pedimos uma porção de linguiça toscana e bruschettas de presunto e cru e de frutos do mar – essa última muito boa, com camarão firme e tempero adequado.

Dos pratos, minha mulher pediu um steak tartar (porção gigante, bem-feito). Eu dividi com um amigo a paleta de vitelo assada com purê de duas batatas e farofa de pão. Essa mesma farofa também aparece sobre o nhoque recheado de mussarela com um saboroso creme de parmesão.

Por sorte, levei uma garrafa de vinho – pela qual me foi cobrada a taxa de rolha de R$ 35,00 –, para acompanhar o jantar, já que a carta da casa apresenta poucas e caras opções. No fim das contas, cada casal gastou R$ 170,00. Em se tratando de São Paulo e de Jardins, um preço justo.

Lorena, 1989. Alameda Lorena, 1989, Jardim Paulista, tel. (11) 3081-2966.