Dois botecos que (sempre) me trazem boas lembranças

Pé Pra Fora: um dos grandes botecos de SP

 

Por dever de ofício, digamos assim, tenho de visitar e descobrir novos bares e restaurantes toda semana, a fim de apresentá-los a você, caro e raro leitor, aqui neste espaço.

Minha vida tem sido mais ou menos essa desde que fui contratado como repórter da PLAYBOY, em 1998, com a tarefa de escrever a página de bares na revista. Nunca fiz as contas exatas mas estimo que, desde então, já devo ter estado – a trabalho, logo, bebendo em serviço – em uns 800 a 1000 desses estabelecimentos em São Paulo e no Brasil. Nesse montante eu coloco também os bares que costumo visitar na condição de pessoa física e os dos países pelos quais passei.

Com tantos lugares a visitar, é de se supor, portanto, que eu não seja daqueles fregueses fiéis que costumam bater cartão num mesmo endereço. Fico meses, anos, até, sem voltar a um bar embora, é verdade, esteja acostumado dar as caras mais vezes naqueles que ficam no meu caminho, perto de casa ou do trabalho.  

Por coincidência, estive recentemente em dois dos melhores botecos de São Paulo, perto dos quais eu morei, mas aos quais não voltava há pelo menos um ano.

Um deles é o Bar do Jô, no Pari, onde participei recentemente de um encontro com meus amigos de colégio. Joilson Batista Araújo, o Jô, abriu o boteco em 1980, ao lado da papelaria Koisas do Arko e de um laticínio do qual não lembro mais o nome. Passados 31 anos, esses dois estabelecimentos já não existem mais e seu espaço foi anexado pelo Jô nas duas ampliações que fez na casa.

Com mesas na calçada, o Bar do Jô é porto seguro para as tardes do sábado, uma espécie de horário nobre local. Jô toma conta do seu boteco dia e noite e ainda arranja tempo para correr em provas de 20 quilômetros, meia-maratonas e maratonas.

As porções que saem da cozinha são grandes, satisfazem facilmente a duas ou três pessoas, caso da feijoada (R$ 50,00). Benfeitos são a caipirinha (R$ 10,00, com cachaça Nega Fulô) e os pastéis de carne, queijo e palmito (R$ 7,00 a porção com três unidades). E para um cidadão pariense como eu, voltar o bairro, rever o Jô, passar em frente ao Colégio Santo Antônio (hoje Bom Jesus), bem, são atrativos extras sempre bem-vindos.

O outro boteco, do qual tornei-me habitué ali por 1998, 1999, é o Pé Pra Fora. Aquela varanda, sempre cheia, festiva, às vezes florida, desde então me oferece a ilusão de que, numa tarde de sol, a praia está mais perto. Perdi a conta das vezes em que, vizinho dali, descia ao bar nas tardes de domingo para um almoço tardio, e os garçons ajeitavam uma mesa para mim diante de uma das TVs para que eu assistisse, mais bem acomodado até do que nas cativas do Morumbi, aos jogos do Tricolor.

Quarentão, o Pé Pra Fora mantém-se digno no serviço e na qualidade do que vende: o bolinho de bacalhau frito na hora (R$ 4,70) só encontra rivais no Bar Léo e no Bar do Luiz Fernandes. A empadinha de camarão (R$ 3,00) é bem decente, a Serramalte (R$ 6,80) está sempre gelada e o espeto misto, composto de alcatra, linguiça e lombo (R$ 48,20), haverá de deixar felizes o paladar e o apetite do caro leitor e de sua senhora.

Promessa para o Ano-Novo: não ficar tanto tempo longe desses botecaços.

Bar do Jô. Rua Conselheiro Dantas, 479, Pari, tel. (11) 3311-0347, http://www.bardojo.com.br.

Pé Pra Fora. Avenida Pompeia, 2517, Sumarezinho, tel. (11) 3672-4154, http://www.pepraforabar.com.br.

Vamos copiar os cariocas: boteco é Patrimônio Cultural

 

Bar Brasil / Foto: Semi Yassuda

 
Não sei de quem foi a ideia, mas ela é genial: hoje termina no Rio de Janeiro o 1º Seminário Internacional do Bar Tradicional, que discute, entre outros assuntos, a história, o clima e o espaço dedicado aos botequins. O apocalíptico tema “Crise atual e estratégias de preservação” vai fechar o evento nesta tarde, que acontece na Estudantina (Praça Tiradentes, 81, centro).

Calma, gente, vamos tomar uma gelada? Não sei qual será a conclusão dos debatedores, mas os bares tradicionais não estão em crise nem no Rio nem em São Paulo ou em qualquer outro canto do país. Uns morrem, é verdade, outros nascem já clássicos, outros sobrevivem por décadas. Assim é a vida, certo?

Tanto não há crise, graças a Gobbo, o anjo protetor dos bares, que doze endereços tradicionais do Rio de Janeiro passam a ser considerados Patrimônio Cultural da Cidade, de acordo com decreto assinado na abertura do seminnário, ontem, pelo prefeito Eduardo Paes. Os mais jovens da lista estão na ativa desde a década de 1930! São eles:

Café Lamas (viva o filé à oswaldo aranha!), Bar Luiz (chopinho e salsichão, que combinação!), Nova Capela (cabrito na madruga), Restaurante Pastoria, o “28” (mais cabrito), Casa Paladino (e sua omelete de bacalhau), Adega Flor de Coimbra (b’linhux d’ b’c’lhau!), Armazém Senado (tremoço e azeitona pra acompanhar a cerveja), Bar Brasil (chope centenário), Bar Lagoa (que lindo!), Cosmopolita (aqui o embaixador do Brasil nos EUA Oswaldo Aranha inventou o… filé à oswaldo aranha), Armazém São Thiago (e aquela polpetta, hein?) e Adega Pérola (sushi de português, isto é, sardinha marinada e enrolada).

Pois terá meu voto nas eleições municipais paulistanas de 2012 o candidato honesto, capaz, comprometido com o ideal de fazer de São Paulo uma cidade melhor e que tiver ideia semelhante a essa dos cariocas, ou seja, de valorizar os botecos e restaurantes mais antigos e tradicionais como um Patrimônio Cultural local. Para dar uma mãozinha, vai aqui a minha lista, também com 12 indicados e seu respectivo ano de abertura. Como critério de seleção, além de minha preferência pessoal, adotei a idade: Todos são mais velhos do que este blogueiro.

1. Bar do Alemão (1968), sanduba de rosbife, samba e choro à paulistana.

2. Bar do Vito (1942), roll-mops (sardinha na salmoura) e cerveja.

3. Bar do Luiz Fernandes (1970) e os bolinhos de carne e de bacalhau feitos pela Dona Idalina.

Bar do Luiz Fernandes / Foto: Mario Rodrigues

 

4. Bar do Luiz Nozoie (1962) e as cervejas mais bem geladas da cidade.

5. Elídio Bar (1973), o balcão de petiscos merece um tombamento à parte. Mas eu quero a versão antiga do bar de volta!

6. Estadão (1968), o melhor sanduíche de pernil deste lado do universo.

7. Frevo (1956), depois do cinema, sempre.

8. Jabuti (1967). Polvo à vinagrete e estamos conversados.

Jabuti / Foto: Gustavo Lourenção

 

9. A Juriti (1957). Rãs e batidas de coco.

10. Léo (1940), o chope. O bolinho de bacalhau. As manhãs de sábado. E seus descendentes Barão e Amigo Leal.

11. Moraes (1929) e seu filé.

12. Pé Pra Fora (1970), a melhor varanda e o melhor filé aperitivo.

13 (…putz, errei na conta!). Valadares (1962), batata serragem e cerveja para fazer descer os testículos de boi.

E para você, que boteco mereceria o título de Patrimônio Cultural paulistano?