Meu vizinho é um bar

Nessa zona urbana que é a cidade de São Paulo, que nenhum plano diretor um dia vai conseguir endireitar, fica cada vez mais difícil definir o que é um bairro residencial.

A região de Perdizes, por exemplo. Na porção delimitada entre as avenidas Sumaré e Pompeia, e entre Alfonso Bovero e Turiaçu, houve um tempo em que ruas como Gastão Mesquita e Apiacás eram dominadas por prédios baixinhos, desses sem elevador, e sobrados.

Se você fizer uma breve e caminhada pelo pedaço hoje em dia verá que onde antes existia meia dúzia de casas surgem espigões de 20 andares ou mais, 2 ou 4 apartamentos por andar. É mais gente que chega, com necessidades, e que contribui para a mudança de perfil do bairro. Se o sossego e o paralelepípedo de algumas ruas andam correndo o risco de extinção, por outro lado a proximidade com a boêmia e saturada Vila Madalena vem fazendo com que alguns bares e restaurantes se instalem em ruas como Cayowaá e Apinajés.

A vocação desses estabelecimentos, me parece, está em receber a vizinhança. Em tempos de lei seca, eles são bem-vindos. Um deles é o Boteco Redentor, que ocupa a esquina das ruas Caiubi e Apinajés, onde antes existiu o Barthô.

Cercado por prédios residenciais, o Redentor é um refúgio para quem quer passar longe de filas de espera e da zueira. Seja nas mesas da calçada ou do salão interno, de pé-direito alto, bebe-se um chope decente (Brahma, R$ 6,90), que, às terças-feiras, é oferecido em esquema compre 1 beba 2.

As opções do cardápio, se não chegam a decepcionar, não emocionam. Com poucos ajustes, poderiam se sair melhor.

O ralo caldinho de feijão preto (R$ 8,50) vem com pouquíssimo bacon e nenhum acompanhamento. Poderia ter um torresminho ou um pãozinho para “xuxar” no copo.

A porção de bolinho de calabresa com alho-poró (R$ 24,90, com 6 unidades) tem mais alho-poró do que a linguiça. Embora tenham vindo sequinhos, os bolinhos estavam com o recheio mais frio. Provavelmente o óleo em que foi fritado estava em temperatura inadequada.

Para comer, a melhor saída são os sanduíches, como o churrasquinho (R$ 21,90), que vem à mesa no prato e acompanhado de fritas.

No fim das contas, fazer a política da boa vizinhança pode ser um bom negócio.

Boteco Redentor. Rua Caiubi, 1249, Perdizes, tel. (11) 2476-8222.

Pastelaria Brasileira: salgados roots

pastel

Em tempos de glamurização de tudo — até mesmo do bolovo, que já ganhou por aí a sua versão gourmet… —, foi um alento ter voltado à Pastelaria Brasileira e constatar que, desde minha última visita, um punhado de anos atrás, nada mudou por ali.

Anteontem à noite, antes de ir ao supermercado, parei para comer um pastel nesse endereço que, aberto em 1975, é um dos mais tradicionais da região de Perdizes, em frente ao Bourbon Shopping e uns metros adiante da entrada principal do Palmeiras.

Se na rua, àquela hora, o termômetro marcava uns 26 graus, ali dentro o calor era saariano, graças à ausência de ar-condicionado ou de ventiladores e à intensa produtividade dos tachos, dos quais saem coxinhas, rissoles, bolinhos e pasteis fritos na hora.

Pedi logo o pastel de carne (R$ 4,00), bem recheado, como sempre, e cuja massa não faz feio, mas não chega perto à dos pasteis de feira, onde, convenhamos, até os ruins são bons.

Em vez do caldo de cana de sempre, desta vez pedi uma cerveja. Só tinha Brahma e Original, e fiquei com a segunda (R$ 9,00).

Saí de lá ainda mais convicto de que poucas coisas são mais chiques do que um salgado roots.

Pastelaria Brasileira. Rua Turiaçu, 2113, Perdizes, tel. (11) 3672-8606, http://www.pastelariabrasileiraonline.com.br.

O mundo lusófono é mesmo pequeno

Na semana passada fui jantar com minha família na pizzaria Bendita Hora. Mais do que por assar boas pizzas de massa média no forno a lenha, gosto de ir a essa casa para passar um bom tempo na sala de espera.

Esse é um dos ambientes mais legais do imóvel que fica na ladeira da Rua Wanderlei, em Perdizes, aliás uma rua em que, ao estacionar, descobre-se que é um verdadeiro teste de resistência para as pastilhas de freio e a embreagem do carro. Por trás da fachada tímida escondem-se um salão de dois andares e, ao fundo e à esquerda, um jardim perfeito para se acomodar com grupos e famílias grandes.

Mas a sala de espera é uma atração a parte, graças à coleção de LPs – deve ter ali uns 1000… – e a vitrola. É só chegar, escolher um deles e colocar para tocar.

Nesse dia, enquanto eu mostrava à minha sobrinha ‘A História de uma Gata’, do musical Os Saltimbancos, de Chico Buarque, minha irmã tirou da estante um LP de Roberto Leal idêntico ao que eu ganhei quando tinha lá meus quatro ou cinco anos de idade. Convém dizer que apesar de pequeno, eu era um grande fã do cantor, de quem assisti a vários shows durante as festas juninas da Portuguesa – um point que frequentei até os 16 ou 17 anos.

Na mesma hora coloquei o disco na vitrola para tocar ‘O Velho e o Mar’, uma canção linda e com belos acordes de violão.

Pois bem, anteontem eu estava na fila prestes a embarcar em um voo para Portugal, quando vi que ele, Roberto Leal, o próprio, também iria seguir no mesmo avião. Não tive dúvida: cumprimentei-o, disse-lhe que era seu fã e pedi para tirar esta foto com ele. Gentilíssimo, atendeu a meu pedido, contei a ele sobre essa coincidência de ter visto seu LP e agora a ele próprio e desejou-me boa estada em Portugal.

Bendita Hora. Rua Wanderlei, 795, Perdizes, tel. 3862-0622.

Trancinhas

– A coisa mais difícil é você se apaixonar e alguém se apaixonar por você ao mesmo tempo. É difícil. Eu me apaixonei desse jeito umas 4 ou 5 vezes, cara.
– É mesmo?
– Paixão é uma coisa meio estranha.

Escutei esse trecho de conversa numa noite dessas, quando fui ao Tiro Liro. Descendente do já afamado Dona Felicidade, é um bar que existe há quatro anos e fica numa bucólica esquina, na qual os funcionários instalam três ou quatro mesas na calçada, que não atrapalham o tráfego, porque ele praticamente inexiste naquele sobe-e-desce de Perdizes.

– Aí ela foi namorar lá com o mané, né? Um imbecil. Eu me lembro até hoje, cara, das trancinhas dela. Me apaixonei, primeira série, cara, primeira série.

No pequeno salão há mais uma dúzia de mesas, que se espalham de frente para o belo balcão de madeira e granito no qual ficam a chopeira (chope apenas razoável, R$ 3,50) e a vitrina de acepipes (100 gramas, R$ 4,10). Ali chama atenção uma vistosa sardinha a escabeche.

Não encarei uma dessas, mas optei pela fina lingüiça a Augusto (R$ 16,00) que, de modo artesanal, é preparada com carne de porco e pimentão. À mesa, chega misturada com cebola, numa chapa quente. Uma delícia, assim como a caipirinha montada em copo longo (R$ 9,00 com vodca).

O Tiro Liro nunca ficou abarrotado, não é um bar de modinhas. É daqueles refúgios de bairro, protegido das vias mais movimentadas e que normalmente se prestam a uma happy hour calma e a um fim de noite tranqüilo. Tão tranqüilo que serve como cortesia os diálogos de fregueses sensíveis, a exemplo desse dos amigos que falavam de paixão.

– Na oitava série ela começou a sair com o tal mané. Aí veio a decepção: ela ficou grávida do cara!

A eles peço desculpas pela minha bisbilhotice, mas aqui cabe uma explicação pela indelicadeza: adquiri esse hábito de xeretar a conversa alheia por estar muitas vezes sozinho nos bares. Por sugestão de um amigo, expert no assunto, acabei aprimorando esse dom de ouvir o que não queria.

– Anos depois me achou na internet. Agora tem dois filhos. Era das mais inteligentes da escola. Deu dó, sabe?

Com a garrafa de uísque 8 anos já pela metade, os amigos se despedem com um aperto de mãos, que logo se transforma em um abraço. E vão embora, um pela Rua Cotoxó, o outro pela Cajaíba.

– A gente é muito certinho, cara.

Tiro Liro Rua Cotoxó, 1185, Perdizes, tel. 3868-3551. 17h/1h (sáb. 12h/20h; fecha dom).